Estado de exceção se tornou regra na política, como a crise virou regra na economia, diz filósofo italiano

Giorgio Agamben

Essa entrevista de 2012 concedida pelo filósofo Giorgio Agamben a Ragusa News (agência online de notícias da região da Sicília) é bem interessante sobre os tempos que vivemos. Giorgio é considerado um dos mais importantes filósofos da atualidade. Na entrevista, que li no blog da Boitempo (editora dos livros do Agamben no Brasil) fala de política, economia, crise européia, democracia, Estado, capitalismo, poder. A desconfiança geral e irrestrita que governos impõem sobre seus cidadãos restringe a participação popular na política e mina os fundamentos da democracia, afirma o filósofo italiano. Na mosca!

Um trecho que considero particularmente importante:

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.

Mas como bem lembrou Giorgio, citando Marx, “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”. Issoae!

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