Jornal do Brasil está com a faca e o queijo na mão

…Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem…

Trecho da letra da música Como Nossos Pais (Belchior) – escute aqui.

O Jornal Brasil, nascido no papel há 119 anos, se tornou hoje o primeiro veículo da imprensa tradicional a migrar totalmente para o meio digital. Houve muito chororô com o fim da versão impressa do jornal, textos e mais textos produzidos para lamentar o fim desse grande veículo de comunicaçao – ver aqui, aqui e aqui. Mas alto lá! Quem disse que o JB morreu? Ok, ele já vem definhando há tempos, não exibia nem de longe o vigor do seu auge, das décadas de 1960 e 1970, mas dizer que o jornal morreu porque mudou a plataforma por onde noticia os fatos é um pouco exagerado, não? O transporte morreu com a transição das carruagens para os veículos automotores? A música morreu com a troca dos LPs por CDs (e agora MP3s)? Claro que não, né?

Esse foi o tema do bom debate que tive ontem no twitter com alguns amigos. Aí resolvi escrever este texto.

É fato que o JB mudou do papel para universo digital por questões financeiras mais do que tecnológicas. Mas convenhamos, uma empresa que tem dívidas de mais de R$ 100 milhões – R$ 30 milhões só de dívida trabalhista, incluindo aí a minha própria! (trabalhei lá de 1997 a 2001, e tungaram o meu FGTS…) – tem mais é que cortar custos para sobreviver! E estima-se que o custo de impressão e distribuição de notícia nos moldes de um jornal tradicional gira em torno de 60% do custo total. Até grandes nomes do jornalismo internacional, como o New York Times, enfrentam problemas com o custo de impressão e distribuição de suas edições diárias.

Muito se falou da morte do antigo JB e quase nada sobre o novo JB – e as perspectiva que ele tem pela frente. Transferir o jornal de mala e cuia para o meio digital, em vez de fechá-lo, é a meu ver pra lá de sensato – e estimulante! Se o slogan “100% digital” for mesmo pra valer, o JB online tem aí uma grande chance de sair na frente dos grandes jornais brasileiros e promover uma revolução na imprensa brasileira, como o fez na década de 1950. E muito mais profunda, porque pode atingir não apenas a parte gráfica/visual, mas também o conteúdo e a forma com que ele é passado a seus leitores.

Com raríssimas exceções, todos os jornais do mundo transferiram para a internet o mesmo modelo que já praticavam no papel – muito texto, algumas fotos, editorias, colunas, mesma hierarquia da informação e a interatividade se resume, quando muito, a áreas de comentários. Um desperdício e tanto das potencialidades que o meio digital oferece. Aqui e ali vemos mudanças nesse modelo, com integração tímida de redes sociais (muitas vezes de forma equivocada) e uso dos recursos que a internet oferece.

Eu não vejo o menor sentido de ter uma reportagem publicada na internet apenas com texto – quando muito, uma foto – e sem link algum. Quando muito os links oferecidos levam a mais texto do próprio veículo, mantendo o leitor dentro de seus domínios, num modelo America Online de navegação. Esse modelo foi o carro-chefe da internet na década de 1990, e ‘trancava’ o usuário dentro do universo da AOL – muito americano jurava que a internet se resumia a isso!

Pois o modelo AOL ruiu, a internet avançou para um sistema de rede em que todos conversam com todos. Não faz mais sentido ter uma página estanque, que não se ‘comunica’ com outras. E é aí que o JB pode dar o pulo do gato. Se quiser ser realmente 100% digital, tem que conversar com outras plataformas, incorporá-las ao seu dia-a-dia, fazer uso de todas as ferramentas disponíveis, enriquecer a informação com tudo que a internet oferece – redes sociais, vídeos, áudios, transmissões ao vivo, twitter etc. Uma reportagem com dois parágrafos de texto, um vídeo de 10 minutos, um infográfico animado como os que temos produzido lá no Blog do Planalto, galeria de fotos, áudio e interação com facebook e twitter, é muito mais interessante e rico do que 90% da informação publicada hoje nos meios online dos grandes jornais! Se antes esse tipo de estrutura era menosprezada por grande maioria dos jornalistas, agora com a chegada dos xPads ela é quase obrigatória.

Cada repórter terá que ir à rua munido de celular multimídia como o N95 da Nokia, uma câmera digital compacta como a G11, e ter a manha de saber que a matéria não está concluída ao final do dia, ela estará eternamente em produção – se acrescentarmos aí nessa receita o conceito wiki então…

Tudo isso por um simples motivo: engajar os leitores, fazer com que eles façam parte do processo. Ninguém quer mais ser apenas leitor, que tomar parte ativamente do processo, interagir, produzir também, comentar, modificar.

Outro dia li sobre a experiência de um jornal americano que produziu durante um tempo uma versão exclusivamente com ferramentas gratuitas e online. É o Franklin Project.

Aqui, o editor do Daily Times, Phil Heron, fala um pouco do projeto:

A história é a seguinte: dezoito das publicações do Journal Register, grupo americano de mídia, se propuseram em julho deste ano a apenas usar ferramentas gratuitas disponíveis online para editar, criar, publicar e distribuir seu conteúdo. O resultado foi impressionante. Jon Cooper, vice-presidente de conteúdo do grupo, defendeu no blog do projeto que essa é a saída. Nas suas palavras:

A diferença entre como as matérias são normalmente escritas e como elas foram escritas para o projeto é o processo. Em muitos casos, as matérias que faziam parte do projeto começaram com a audiência. As pessoas que estão normalmente no final da fila foram trazidas para a linha de frente do processo. Em vez de apenas poder ler o produto final, a audiência – por meio de reuniões presenciais, sites de redes sociais, email, pessoalmente e mais – foi convidada a ajudar a determinar o que o corpo editorial deveria cobrir.

Isso levou a colaboração interna da empresa aonde tem que ir – colaboração entre a audiência e nossa organização. Para realmente servir a comunidade em que vivemos e trabalhar nós precisamos ser parte dessa comunidade. Precisamos ouvir essa comunidade. E, precisamos ter a ajuda dessa comunidade.

Ferramentas usadas pela empresa incluem Google Docs, Youtube, Flickr e WordPress, mas a lista não pára de crescer.

O futuro dos jornais está nas ferramentas gratuitas e online, e na aproximação efetiva dos veículos de comunicação de seus leitores, para transformá-los em parceiros na produção da informação.

Se o pessoal do Jornal do Brasil entender isso e mergulhar de cabeça nesse novo modelo, poderá dar a volta por cima com estilo. Caso contrário, será mais do mesmo.

ADENDUM

Ah, sim, já ia me esquecendo: a grana. De onde virá? Como o JB se manterá – no velho ou no novo modelo? Bom, aí já não sei – e acho que o pessoal que tá tocando o jornal atualmente também não sabe. Eles estão apostando na velha combinação anúncios + assinatura (R$ 9,90) mensais. Mas como bem disse meu camarada Marcos aí na área de comentários, difícil alguém pagar a merreca que for por algo que já não era lá essas coca-colas quando impresso, agora apenas transposto para o meio digital.

Que venha pois um mecenas ou um grupo empresarial como esse de Portugal do Brasil Econômico, sei lá, pra injetar dinheiro e ânimo novos do bom e velho ‘jotinha’.

ADENDUM 2

Achei dois textos e um infográfico bem interessantes que tratam do tema deste post. Um dos textos revela que uma agência de notícias russa lançou um prêmio para incentivar a produção de conteúdo pelos leitores. O outro, do blog García Media, traz o texto Ciao Jornal do Brasil, see you online, no qual afirma que o modelo adotado pelo jornal carioca é um dos três que dominarão o mercado dos jornais nos próximos cinco anos em todo o mundo – eu daria uns 10 anos, mas enfim. Vamos a eles:

1. O jornal impresso como parte de uma multiplataforma do veículo: este será o modelo mais comum, no meu ponto de vista. O jornal se adaptará e mudará seu papel dramaticamente, mas sem parar de imprimir. Como no caso do Detroit Free Press, nśo teremos o jornal impresso em alguns dias da semana, não em outros.

2. O jornal impresso como parte de um pacote de fim de semana apenas. Foi isso que o The Christian Science Monitor fez: tinta no papel apenas nos fins de semana, e uma edição online diária.

3. O jornal online/para tablets/pads: neste modelo, escolhido pelo Jornal do Brasil, não veremos o produto impresso, mas a publicação continua digitalmente apenas. O espírito e a tradição jornalística do Jornal do Brasil ainda estão aqui. Me recuso a pensar que esse é o caminho que todos os jornais tomarão. Nem um pouco, mas será uma das opções que terão as publicações que enfrentam tempos difíceis. Não é uma solução que funcionará para todos – e, mesmo, para muitos, estou certo.

Já o infográfico traz uma visão geral da indústria gráfica, com números bem interessantes. Eis alguns:

– Houve um aumento tímido de leitores de revistas entre 2005 e 2009 (nos EUA), nas faixas etárias entre 18 e 49 anos. Os leitores de jornal diminuíram (até 10% entre 39 e 49 anos). Os de internet aumentaram bem em todas as faixas etárias.

– 60% dos consumidores americanos planejam comprar um tablet nos próximos três anos.

– A indústria de jornais impressos deve perder 25% de seus postos de trabalho.

– A venda de livros cresceu 11,4% este ano nos EUA (até junho). A de e-books cresceu 204,2%.

A íntegra do infográfico tá aqui.

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5 respostas para Jornal do Brasil está com a faca e o queijo na mão

  1. Marcos disse:

    Sinto muito, mas não compartilho do seu otimismo. Quando o JB anuncia que vai ser 100% digital, está apenas dizendo: “a mesma porcaria que publicávamos em papel e ninguém queria comprar agora será publicada apenas no nosso site”. E vai continuar sem leitores.

    Se houvesse alguma perspectiva, mínima que fosse, de mudar o jeito de fazer jornalismo, ela já estaria sendo experimentada há algum tempo, e fazendo algum barulho. Mas eu não lembro a última vez que vi alguém citar ou linkar o JB. Tem dezenas de blogs, como o do Nassif (principalmente por ser colaborativo), muito mais relevantes que o JB online ou offline.

    Os mesmos coveiros que enterraram o JB de papel estão à frente do JB online. Eu ia dizer que nunca compraria um carro usado dessa gente. Mais apropriado: não abriria um e-mail que venha dessa gente, vai que é trojan.

  2. Anônimo disse:

    Marcos, entendo perfeitamente a sua indignação com os caras que comandam o JB atualmente – sinto o mesmo. Mas independentemente de gostar ou não deles, gostaria mesmo de ver o JB ressurgindo das cinzas. Ele vai continuar sendo “a mesma porcaria” e sem leitores se mantiver o esquema atual. Então, porque nao arriscar algo diferente? O que eles tem a perder?

    Ouvi dizer que o Tanure está de saída, espera apenas alguém aparecer com a grana pra levar o jornal. Que seja! E tomara que o novo proprietário seja alguém com culhão suficiente pra por o bloco na rua de uma forma mais criativa, interessante, instigante.

    Não tenho a menor ideia se minha receita de bolo funcionaria, foram apenas elocubrações sobre perspectivas e possibilidades, instigado pelo imenso mimimi que li durante a semana sobre o “fim” do JB. Mania besta de jornalista ficar enaltecendo o passado e ignorando o futuro, porra! 🙂

  3. Uau!!! Ficou muito bom mesmo!

    Eu só acrescentaria (pra florear, pq o post tá excelente) que o Guardian, que eu não acho que use todos esses recursos especificados aí em cima mas é uma de minhas teteias como vc bem sabe, recentemente lançou um sistema que permite a replicação do seu conteúdo em troca de anúncios (http://olhardigital.uol.com.br/negocios/digital_news/the-guardian-incentiva-copia-de-seu-conteudo-em-blogs-e-sites-independentes/12759.
    Outra coisa que eu acho importante – mas eu sei que vc não gosta – são os aplicativos pra celular. Eu já gostava do Guardian, mas fiquei viciada nele por causa do app que o Snaptu tem pra ele. Agora qq tempinho livre eu vou lá dar uma bizoiada. O NYT tem isso também, e não sei se algum jornal brasileiro tem – se não tem deveriam pensar em ter. Eu adoraria ter um aplicativo bacana do Estadão no meu cel.
    De resto, foi o que falei lá no buzz: o JB tirou um tarô e saiu a carta da morte dele, que é transformação. Vamos ver como ele vai encarar isso. Quem viver verá…

    Beijos e parabéns pelo post de novo!

  4. Anônimo disse:

    Obrigado, Flávia, vc sempre muito gentil comigo!

    E muito bem lembrado esse sistema do The Guardian que permite a replicação de conteúdo em troca de anúncios. Pode ser uma boa também. Enfim, as oportunidades geralmente aparecem aos borbotões justamente em tempos de crise e/ou tragédias.

  5. Ana disse:

    Também torço muito pra que o JB online vingue. Tirando a questão do Tanure estar a frente, que vc já sabe o que penso sobre isso, fazendo uma análise por alto do que escreveu, tenho dúvidas sobre a aplicação pra ontem de todo esse processo. Será que realmente esse meio de comunicação está preparado pra essa engrenagem? Penso que um fato é a questão cultural, outro é que a porcentagem que tem acesso e o hábito ainda é muito pequena. Jornalistas se adaptaram aos novos requisitos que a profissão exigiu, ferramentas é o que não faltam para disponibilizar informações, mas será que a força motriz e os veios que a envolvem têm gás para move-la? Posso estar falando uma grande besteira, mas tenho cá minhas dúvidas, ainda!
    E Jorge, chororo quem faz é criança mimada né!!! E o clichê “saudosismo” não caberia mal. Saudades a gente só tem do que foi bom, e querendo ou não, o JB fez uma bela e grande história.
    Bem, de qualquer maneira, sou a favor do novo! Mas, respeito o passado 🙂

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