Arte de rua só é arte se estiver numa galeria?

Fui com as crianças, no último fim de semana, à exposição d’Os Gêmeos na Faap. Uma beleza. Vários dos clássicos da dupla paulistana de grafiteiros estavam lá, para deleite do público. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas não pude deixar de perceber uma instigante contradição no que via ali: o público que babava com as obras expostas é o mesmo que despreza não só grafiteiros e pichadores, como também a rua e seu povo, que são a alma da arte d’Os Gêmeos.

Talvez, quem sabe, estimulados pelo texto da responsável pela curadoria da exposição, que logo na entrada do salão advertia: o que se veria lá dentro não tinha nada a ver com “vandalismo da pichação”. Será que a gente só dá valor ao que está numa galeria, com a chancela de homens e/ou instituições de bem?

Ora, ora, ora, a sra. Celine, acho que muito em breve você vai se envergonhar do que escreveu e quem sabe até se desculpar. Isso porque a pichação ‘vândala’ já começa também a ganhar galerias de arte pelo mundo. Veja aqui, por exemplo, o que a Fundação Cartier, uma das mais respeitadas instituições do mundo em termos de arte contemporânea, tem a dizer sobre a pichação – principalmente a de São Paulo.

Viu lá? Pois é… Os garranchos ficam até mais respeitáveis, não?

Pode ser, mas o lugar desse tipo de arte é na rua…

(Trailer do documentário O Pixo, de autoria do fotógrafo João Wainer, lançado este ano e que vem fazendo um baita sucesso na Europa)

Obras d’Os Gêmeos em seu habitat natural, a rua – aqui e aqui.

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9 respostas para Arte de rua só é arte se estiver numa galeria?

  1. Izabella disse:

    Gostei do post… um abraço

  2. Flavia disse:

    🙂

    Tenho uma confissão a fazer: ando enjoada d’Os Gêmeos faz um tempinho. Eles viraram pichadores cult, aquela coisa “darlings dos culturetes”. O trabalho deles é bacana? É. Mas sei lá… pra mim perdeu um pouco essa coisa da pichação roots – mas confesso que tudo isso que estou falando é intuitivo, não tenho embasamento técnico ou cultural pra falar disso.
    Na real? Super curti o dia em que fui ver o @souzacampus (aka marido da @lilianeferrari) e mais uma galera ir pichar um beco na Casa Verde (fotos aqui http://www.flickr.com/photos/samegui/sets/72157615762200322/)
    ou então ver o cara que pichou o buraco da Paulista ir restaurar o trabalho dele outro dia (adorei conversar com ele, aliás) e contar como o trabalho foi tombado pela Prefeitura. Ainda tem tempero sabe, é pichação no estado puro.

    E last but not least, já que vc falou do pessoal da rua, não sei se conhece esse post meu http://ladyrasta.com.br/2009/09/01/sem-lenco-nem-documento/
    Acho que vc vai gostar.
    beijos

  3. sandro disse:

    assisti o filme PIXO na fundação Cartier em Paris durante um Mostra sobre Grafite. Muito bom mesmo esse filme e a reação do público tbm era super positiva em relação ao filme.
    Qdo passar por aqui, quero ve-lo novamante.

  4. Alexandro Cruz disse:

    Fala meu camarada, tudo bem? Fiquei sabendo que agora o senhor é as mãos do Lula, que digitam os textos no blog do Presidente. Parabéns!
    Cara, só um comentário, conheço OsGemeos do meu bairro, Cambuci City e, sinceramente, arte de rua tem que ser exposta na galeria da RUA. São Paulo já é bastante separatista em relação a tudo e a todos. Por isso, faço uma pergunta, os verdadeiros admiradores das obras estavam lá? Que são o motoboy, o pedreiro, motorista de ônibus, o camelô, dona de casa, entre tanto outros? Duvido!!! Mas, como sempre digo, arte só vira arte, quando fica cara!
    Um grande abraço e precisamos marcar uma breja por aqui!
    Ps.: quem vos fala trabalhou com você no GE ou melhor, no portal dos Telecentros.

  5. Luís disse:

    Caí de pára-quedas aqui no seu blog, por causa do seu texto sobre o Ali Kamel, e descobri outros bons exemplos de inteligência e senso crítico. Gostei muito do seu texto. Sempre achei formidável essa capacidade da arte de questionar e contestar, mas também acho que mesmo a arte não deveria ser isenta de questionamento e contestação, tal como você fez agora. Ultimamente tenho pensado muito nos textos ou cadernos de mediação que acompanham as exposições porque eles partem do pressuposto que o cidadão comum não compreende o sentido e o significado das obras, daí a necessidade de explicação de um “especialista”. Não seria rescaldo dos valores aristocráticos que estão nas origens do próprio conceito de arte, tal como sugerido do livro “Arte – Inimiga do Povo” de Roger Taylor (editora Conrad)? É algo a se pensar… Um abraço e parabéns pelo blog.

  6. Luís disse:

    Caí de pára-quedas aqui no seu blog, por causa do seu texto sobre o Ali Kamel, e descobri outros bons exemplos de inteligência e senso crítico. Gostei muito do seu texto. Sempre achei formidável essa capacidade da arte de questionar e contestar, mas também acho que mesmo a arte não deveria ser isenta de questionamento e contestação, tal como você fez agora. Ultimamente tenho pensado muito nos textos ou cadernos de mediação que acompanham as exposições porque eles partem do pressuposto que o cidadão comum não compreende o sentido e o significado das obras, daí a necessidade de explicação de um “especialista”. Não seria rescaldo dos valores aristocráticos que estão nas origens do próprio conceito de arte, tal como sugerido do livro “Arte – Inimiga do Povo” de Roger Taylor (editora Conrad)? É algo a se pensar… Um abraço e parabéns pelo blog.

  7. LICURGO NETO disse:

    LICURGO NETO ARTISTA PLÁSTICO

    Conheçam o site do grande artista plástico Licurgo Neto, baiano de Esplanada.
    Licurgo foi o criador do espaço Varanda das Artes em Paquetá, onde se realiza um projeto para um centro cultural de artes plásticas.
    Licurgo utilizou diversos estilos de pintura para mostrar o seu talento, e através de exposições em diversos países, tornou-se conhecido internacionalmente.
    Seu estilo retratava a simplicidade de seu povo, suas origens, sua terra, os problemas sociais.

    Visite o site sobre a vida e a obra do artista plástico Licurgo Neto, com fotos, vídeos, depoimentos, e muito mais.
    Temos também dicas culturais atualizadas: programação de cinema, teatro, shows, restaurantes, etc.
    Guia de museus e galerias de arte do Brasil.
    Biografia dos grandes mestres da pintura, através de enciclopédia virtual.

    Acessem: http://www.licurgonetoartistaplastico.com.br
    http://www.licurgonetoplasticartist.com

    Siga-nos no Twitter:
    https://twitter.com/licurgoneto

    ORKUT: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?rl=mp&uid=12342826574339554112

  8. Eu aprecio muito a arte de rua, não pelas mensagens de protesto, mas pela grande criatividade do artista porque muitas vezes eles nem mesmo tem algo planejado e consegue num insight tirar um mundo de idéias da cabeça e aí vai nascendo cada obra de arte dignida de mestre. Me atrevo a dizer que os maiores artistas estão “lá fora” nos guetos, nas esquinas propagando uma cultura racional do certo, da visão de como as coisas estão e o que temos que fazer para melhorar. Vocês são o nosso espelho, nossa janela para a realidade.
    nota 1000 pra vcs.

  9. Anônimo disse:

    Vi lá, Flavia, muito maneiro mesmo! Os Gemeos já viraram arroz de festa, é verdade, mas ainda curto o estilo deles. E esse cara do burcado da Paulista é genial!

    Concordo plenamente com vc , Luis! Em geral, quem escreve os livretos das exposicoes em geral é adepto apenas da arte institucionalizada…

    Sandro, estou doido para ver o filme, espero que tenha a oportunidade um dia aqui em Brasilia.

    E ai, Alexandro, quanto tempo! O que anda aprontando? Estou por Brasilia agora, quando vier pra cá, avisae pra gente tomar umas e outras!

    abraços!

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