Flashback

Voltando de uma visita frustrada a uma amiga, que não estava em casa, passei pela quadra 407 norte, onde morei de 1975 a 1977, dos 7 aos 9 anos. Vim pra Brasília quando minha mãe se separou do meu pai e foi transferida do Rio pelo Ministério das Relações Exteriores, onde trabalhava. Eu e meus irmãos chegamos em seguida, após nossa primeira viagem interestadual. Foi uma fase difícil, em que nossos pais estavam se separando, e nós deixando para trás, pela primeira vez, o pai e o Rio de Janeiro.

Ao chegar à na quadra, procurei pelo bloco N (de Nora, nome da minha mãe) e estacionei bem em frente à sacada do nosso antigo apartamento. O tempo pareceu parar. Desci do carro e fiquei por uns instantes que nem um dois de paus ali, olhando os arredores, sentindo a atmosfera. A manhã estava quente, mas uma leve brisa amenizava o calor. Acendi um cigarro e fui dar uma volta.

As lembranças logo começaram a pipocar: lá estava a portaria com sua escadaria vazada, que sempre provacava tropeções e onde uma vez encurralei um rato e o matei com uma tijolada, e as pilastras usadas como base para o pique-esconde e a brincadeira ‘salada mista‘, quando dei meu primeiro beijo (selinho). Pude quase ouvir os ameaçadores berros da Wilma, nossa empregada, vindos da janela dos fundos do apartamento sempre ao fim das tardes, nos chamando para tomar banho. Subindo por uma rua que jurava ser mais íngreme, cheguei ao campinho de futebol onde soltava pipa, andava de bicicleta e fugia da chuva, que dava pra ver chegando à distância (coisas do planalto central), lá da outra quadra.

Na parte da frente do bloco, o então gramado irregular, palco de históricos embates de pique-bandeira, cheio de raízes das grossas árvores com espinhos nos troncos (que eram verdes e pontudos, hojes escuros e quebradiços) que furavam nossas bolas dente-de-leite, agora está mais arrumado, com cercas-vivas delimitando pequenos jardins. O mesmo não acontece com a calçada, onde andei de velotrol no primeiro dia que cheguei a Brasília: toda rachada, parece não ter sofrido reforma alguma em mais de 30 anos.

Mais adiante passei pela igreja Batista que frequentávamos e lembrei do pastor bonachão, cara de gringo, alto pacas, que se inclinava todo para me cumprimentar – justamente com a mão que tinha um problema, era bem inchada, muito estranho. E quando cheguei à escola pública onde estudei na divisa com a quadra 408, ao ler a faixa pendurada na entrada – ‘lugar de gente feliz’ – confesso que sentei e chorei…

Não pensei que a passagem por esse túnel do tempo fosse mexer tanto comigo. Estou num momento semelhante àquele de 34 anos atrás, saindo de SP após 10 anos e deixando por lá filhos e amigos queridos, e certamente isso potencializou a experiência. E o mais curioso de tudo é que pintou um apartamento para alugar justamente na quadra 407 norte (não no mesmo bloco). Confirmando, vai ser uma viagem e tanto.

Definitivamente seguimos adiante numa grande espiral, não em linha reta. Esse é, talvez, o grande barato da vida.

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16 respostas para Flashback

  1. Lucia Malla disse:

    Ô se é… q barato, Jorge! 🙂

  2. Rita Vieira disse:

    Jorge, fiquei emocionada…voltei ao passado..vc me cativou..
    Bjus no coração.

  3. denise rangel disse:

    Vai ser uma experiência e tanto. Brasília é uma cidade linda e ao mesmo tempo solitária. Em caso de saudade, ponte-aérea. Só não use as cotas para sirigatear na Europa, hehe (pra descontrair…).
    abraço, garoto

  4. Lili disse:

    Não acredito!!! Vc foi para Brasilia??
    Definitivo???
    Agora que parei com as viagens e ia te convidar para um choppinho….snif snif.
    Oq c foi fazer aí???
    beijos
    de quem não merece nem um feliz aniversário…rsrsrs

  5. Lili disse:

    ahhh..esqueci de comentar…fiquei emocionada e parei para pensar….vc é demais!!!
    bjs para quem merece ser feliz e muito mais..

  6. Lili disse:

    Lindo lindo lindo……..

  7. Anônimo disse:

    Lucia, está sendo mesmo um grande barato, revendo lugar, amigos, situacoes.

    Rita, obrigado!

    Denise, tb acho Brasilia linda. Solitaria nem tanto, acho que as pessoas aqui estao mais abertas a amizades e relacionamentos, justamente porque vieram de varias partes do pais. Acaba amenizando a solidao… E sim, vou usar todas as minhas milhagens pra matar a saudade quando pintar! 🙂

    Pois é, lili, me esnobou tanto que resolvi cair fora! Mas nao é definitivo nao, fico aqui 1 ano e meio, depois eu volto. E te perturbo de novo! (ah, sim, tem os fins de semana que estarei em SP, te aviso) bj

  8. Vera disse:

    adorei …..simplesmente adorei, muitas saudades

  9. Sonia Schwartz disse:

    Então… se vc estava em Bsb até 77, a gente passou praticamente 1 ano na mesma cidade, ao mesmo tempo e sem se conhecer! Fui morar em Brasilia em 76, quase que na mesma situação… papai e mamãe separados… etc…etc…
    Mas não fiquei nas 400. Fomos morar nas casas da 712N. Conheço todas as brincadeiras de criança que vc mencionou… incluo nesta lista a carniça, polícia e ladrão e o labirinto…. que só, em algumas quadras privilegiadas, tinha o enorme labirinto desenhado no chão do fim da rua. Bem, essa só quem passou a infancia em Bsb vai saber do que estou falando!
    Querido, tenha uma boa estadia por ai, espero que a cidade continue linda como há alguns anos. E se quiser fazer uma tatuagem, procure o meu irmão no Conjunto Nacional. Vcs vão se divertir! Ele é conhecido como Borel do BT Tattoo! Bjs. Soninha.

  10. Anônimo disse:

    que coisa, heim Sonia? Obrigado pela força. E sim, Brasilia continua linda! Quanto à tatuagem, acho que vou passar, nao to mais na idade, né? Mas vou dar um alô pro seu irmao qq dia desses! E quando estiver em Brasilia, avisae!

    beijos

  11. Brasília, cara?
    Boa sorte por aí.
    Grande abraço.

  12. Anônimo disse:

    pois é, meu caro, Brasília. Mas tá de boa. E por ai, tranquilo?

    valeu pela força!

    abração!

  13. Jesuan Xavier disse:

    Cara, você está em Brasília??? Morou lá até 1977??? Putz, então temos mais isso em comum…Nasci na Capital, em 1971, onde fiquei até 1987, quando vim para o Rio. Suas lembranças de infância são quase as minhas naquelas “entrequadras”.
    Boa sorte meu camarada e tudo de bom!!!
    Grande abraço, Jesuan

  14. Léo Bueno disse:

    Véio:

    Como está o trabalho no blog? Você está trabalhando com quem (tipo secretaria, ministério, sei lá)? Posso ajudar na divulgação?

    Abração

    Léo

  15. Anônimo disse:

    tempos bons, nao, meu camarada Jesuan?

    E Leo, estamos em fase de testes, em breve estará no ar, fique ligado!!

    abração!

  16. Albert disse:

    Caray Jorge !

    Comigo o ritual é bem parecido, cada ida a BSB serve pra revisitar os mesmos lugares,as vezes tentanto buscar um passado que não está mais lá ! A 307 sul, nossas rodadas de chopp e piadas na carne de sol, minhas antigas casas, escolas.
    Sorte que esse passado ainda vive um pouco quando encontro Guto,Lilian e Byron…precisamos nos rever.
    Voa começar voar para uma empresa de BH que voa muito pra BSB e logo vamos marcar algo.

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