Maurren de ouro e algumas reflexões olímpicas

Legal ver Maurren Maggi conquistando hoje de manhã uma histórica medalha de ouro olímpica no atletismo. Foi a primeira de uma mulher brasileira na modalidade – aliás, a primeira medalha individual de uma mulher brasileira em Olimpíadas. Ela merece. Quando foi suspensa por doping às vésperas dos Jogos de Atenas 2004, achei que sua carreira tinha acabado. Que nada. Batalhou e deu a volta por cima agora em Pequim.

Fui um dos primeiros a entrevistá-la em 1999, para o Jornal do Brasil, quando ela começou a aparecer bem no ranking da Federação Internacional de Atletismo (Iaaf). Morava no alojamento do centro esportivo do Ibirapuera, em SP e era já treinada por Nélio Moura, seu técnico que chorou feito criança no Ninho do Pássaro quando a russa Tatyana Lebedeva saltou 7,03 metros na última tentativa, ficando a um centímetro da marca de Maurren (7,04). Ouro pra meninona de São Carlos, que corria os 100 com barreiras e gostava de se vestir de preto com as amigas e sair na noite paulistana pra zoar.

O ouro de Maurren levantou o Brasil no quadro geral de medalhas em Pequim – está em 26o. lugar agora, com 2 ouros, 3 pratas e 7 bronzes (12 no total) – e ainda temos mais duas garantidas, no vôlei de quadra, masculino e feminino, só falta saber a cor delas. Não é um resultado ruim, levando-se em conta que a atividade esportiva não é uma prioridade no país. Estamos próximos de Cuba (2, 6, 11 – 19 no total) e a frente de países como Dinamarca, Suíça, Hungria, Noruega, Suécia e, claro, Argentina.

É bom frisar também que alguns países tem muito menos medalhas que o Brasil, mas como ganharam mais ouro, aparecem na frente no quadro geral – é o caso da República Tcheca e a Eslováquia, que têm apenas seis medalhas, das quais 3 de ouro. É uma questão de critério. Os americanos levam em consideração o total de medalhas, e por isso a imprensa local mostra o país na frente da China, diferentemente do que acontece na contagem do COI e de outros países. Talvez fosse legal dar pontos para cada medalha – 3 para ouro, 2 para prata e 1 para bronze. Aí certamente teríamos um panorama mais fiel do desempenho dos países nos Jogos Olímpicos. Por esse critério de pontuação, China e EUA estariam neste momento empatados no quadro de medalhas, com 200 pontos cada. O Brasil teria 19 pontos.

ATUALIZANDO (25/8): Acabamos com 3 ouros, 4 pratas e 8 bronzes. Pelo sistema de pontuação, fizemos 25 pontos e estaríamos em 18o. lugar na tabela. China realmente ficou à frente dos EUA, com 223 pontos contra 220. Refiz a tabela de medalhas lá no orkut, se quiser conferir.

Por falar em quadro de medalhas, saca só este do New York Times – genial!! Tem de 1896 a 2008. Vale guardar o link porque valerá para os próximos Jogos também.

Apesar das 12 medalhas já conquistas (mais as duas que virão no vôlei), não é raro escutar e ler por aí que o desempenho do Brasil é vergonhoso, que vários atletas estão amarelando, perdendo medalhas certas, etc. A pressão e o deboche é tão presente que muitos atletas estão pedindo desculpas por não terem correspondido às expectativas – talvez infladas pelo falso bom desempenho no Pan do Rio em 2007.

Esses idiotas da objetividade ignoram quem fica fora do pódio e, contraditoriamente, reclamam que o esporte brasileiro não vai para a frente. Só confirmam a velha máxima: brasileiro não gosta de esportes, gosta de ganhar.

Nada mais distante do espírito olímpico. Assim, o esporte brasileiro só tem a perder.

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NOTINHAS OLÍMPICAS

* Independentemente do critério a ser usado para ranquear o quadro de medalhas, a China vai despontando como a grande vitoriosa dos Jogos de Pequim. Seus atletas têm obtido vitórias em esportes como atletismo, esgrima e boxe, que nunca foram suas especialidades.

* A grande decepção são os EUA, principalmente no atletismo, onde costumam sempre fazer barba, cabelo e bigode. Em Pequim, ficaram de fora de várias finais e abriram uma grande crise. Algo me diz que isso está diretamente relacionado ao caso Balco e aos casos de doping de atletas como Justin Gatlin e Marion Jones.

* Destaque para a Grã-Bretanha (ou Reino Unido, como queiram), que ocupa a terceira colocação no quadro de medalhas do COI (tem 93 pontos, segundo o critério de pontuação. Ficaria atrás da Rússia, que é 4a. no quadro do COI, mas tem 103 pontos). A próxima Olimpíada será em Londres (2012) e todo país-sede melhora muito seu desempenho nos Jogos imediatamente anteriores, atingindo o auge em casa. Sempre foi assim – fiz um levantamento em TODAS as Olimpíadas e não falha. Vale também para Jogos Pan-Americanos.

* Preciso urgentemente trocar de sofá. Dormir toda noite no velhão lá de casa tá me deixando todo torto… É o preço que estou pagando para poder curtir o máximo dos Jogos de Pequim. Em 2012, espero ter um sofá-cama…

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Uma resposta para Maurren de ouro e algumas reflexões olímpicas

  1. Eli disse:

    Agora, 14:30, as meninas do Brasil já são Campeãs Olímpicas de volei, saindo do inferno onde a mídia as colocou em Atenas para o Olimpo, em Pequim. Parabéns para elas, o José Roberto e comissão técnica. Entre outras coisas, porque tiveram a sensatez e humildade de procurar uma psicóloga especializada em esportes, que só está em Pequim agora, segundo eu li, porque o José Roberto paga do bolso dele.

    Ah! Natalia Falavigna ganhou um bronze no Taekwondo. Provavelmente a medalha que saiu mais barata pro Brasil. A ajuda do COI para o taekwondo é mínima e a Natália conta mesmo é com paitrocínio/mãetrocínio. Parabéns, Natália!
    Em 2012, Jorge, a gente só vai precisar acordar um pouco mais cedo… rs…

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