Já pra rua!

Sempre curti bater perna pela rua. Sou andarilho por natureza. No Rio, São Paulo, Londres, Sevilha, onde quer que seja, é um grande barato circular a pé, só assim é possível realmente conhecer os cantos da cidade.

Em Paris uma vez perdi o último metrô em La Defense, bairro modernão que fica nos subúrbios da capital francesa, e sem um puto do bolso, o jeito foi caminhar até a casa onde estava hospedado no Boulevard Pasteur, do outro lado da cidade. Acho que andei por uma hora ou mais e passei por quase todos os pontos turísticos parisiense, do Arco do Triunfo e avenida Champs-Elysees, ao Trocadero e Torre Eiffel, maravilhado com a lindeza silenciosa deles. Era madrugada e estava frio, mas Paris é plana e ainda mais bela à noite. Naquele perrengue danado entendi enfim o por quê do apelido Cidade Luz.

No Rio, meu recorde pessoal foi o trajeto Vila Isabel-Botafogo, com direito a amanhecer na Presidente Vargas em meio a cotias. Aqui em sampa, já andei da Vila Madalena ao Parque do Ibirapuera. Com dois filhos, as caminhadas encurtaram bastante, mas sempre que posso dou umas voltas pelo bairro, apesar dos muxoxos do Martim: “É muito cansativo andar, pai…”

Além de ser um bom exercício, caminhadas longas nos dão o tempo que falta no dia-a-dia para reflexões essenciais à manutenção da saúde mental. Prefiro os périplos noturnos, de preferência na alta madrugada, quando é possível topar com os tipos mais bizarros da fauna urbana, apreciar cenários que à luz do dia são ofuscados pelo cotidiano e escutar o quase-silêncio.

Acabei de ler o livro Carnaval de Fogo – crônica de uma cidade excitante demais, do Ruy Castro, uma ode ao Rio de Janeura. Me inspirei pra escrever este post ao ler trecho do capítulo quatro em que o autor diz a certa altura:

Tom Jobim dizia que a melhor maneira de passear por Nova York era de maca. No Rio, os veículos ideais são os pés – pelo asfalto ou pela areia – e a literatura. Os dois costumam andar juntos: poucas cidades se prestam tão bem como personagens, já fizeram tantas ruas de musas e geram tantos autores que escrevem com as pernas – pena que escrevam com tinta secreta, digo, em português.

E desanda a citar legítimos flâneurs cariocas, andarilhos urbanos que exploram a cidade a bordo da tradicional Viação Canela e souberam como poucos decifrar o Rio. De Joaquim Manuel de Macedo (autor do livro Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, de 1862, e Memórias da rua do Ouvidor, de 1878) a João do Rio (A alma encantadora das ruas, de 1908) e Luiz Edmundo (O Rio de Janeiro do meu tempo, 1938).

Lá pelas tantas, Castro pergunta: “haverá o escritor que seja um flâneur puro e ande pela cidade decidido a não escrever?” Me considero mais flâneur do que escritor, mas ainda assim me atrevo a responder: impossível. A enxurrada de boas histórias que brotam de uma boa caminhada pedem para serem compartilhadas. Podem até demorar pra ganhar vida fora da cachola, mas uma hora sai. Como agora.

E se flanar por aí hoje em dia ainda é prazeiroso, apesar dos pesares, imagina num Rio de Janeiro idílico de 1936? O filme abaixo, City of Splendours, fazia parte de uma série de documentários da MGM chamada Traveltalks (The Voice of the Globe) e nos revela uma cidade verdadeiramente maravilhosa. Confira!

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11 Responses to Já pra rua!

  1. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    aliás, e os chavistas metendo bala nos estudantes na Venezuela, hein? pois é.

  2. Avatar de jorge jorge disse:

    Chavistas? Segundo quem? O Globo, que outro dia virou piada na imprensa mundial ao publicar que nas selvas bolivianas havia milhares de milicianos prontos pra atacar? Ou a Folha, que chama Chavez (eleito democraticamente) de ditador e pervez mussharaf, do Paquistao, de presidente? Quem sabe ainda o Estadao, que bate bumbo pro Brasil se preparar para uma guerra contra a Venezuela e, por isso, se tornou a principal filial brasileira da imprensa golpista?

  3. Avatar de escriba escriba disse:

    Muito bom esse pessoal do Rebar, André! Vou postar mais tarde!! valeu!

  4. Avatar de Zé José Zé José disse:

    Genial, netinho!
    Putz, fudemos com esta cidade.

  5. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Então é mais grave ainda, pois há bandidos nas ruas de Caracas e o governo de lá deixa correr solto.
    Aliás, já viu o video do Chavez mentido? tá no Youtube.

  6. Avatar de escriba escriba disse:

    Curioso que a tal ‘reportagem’ (sic) naõ informa ao público que houve um golpe contra o Chavez depois dessa entrevista, patrocinada por empresários e pela mídia. E que a RCTV não foi confiscada nem estatizada, muito menos sua concessão revogada. Ela foi não-renovada por ter a RCTV cometido inúmeros atos ilegais, entre os quais sonegação fiscal e participação direta no golpe. Em qualquer lugar do mundo aconteceria o mesmo. Imagina se a NBC americana ou o Canal Plus francês participassem diretamente de golpes contra Bush e Sarkozy…

  7. Avatar de Andre Andre disse:

    Acho divertido como vc defende el Chavez!

    Volto a insistir: se ele fosse coerente, JAMAIS venderia petróleo aos Eua. No fim, tudo é grana mesmo.
    Não passa de um ditador de república de bananas mesmo, pqp.

  8. Avatar de Otavio Otavio disse:

    Fala Jorge, fico feliz que o Carnaval de Fogo tenha esquentado suas veias. Curioso, ontem me chegou por outras vias esse city of splendour, muito bom.

  9. Avatar de escriba escriba disse:

    O livro é muito bom mesmo, Otavio! Li numa semana, simplesmente impossível de parar! Valeu!

  10. Avatar de escriba escriba disse:

    Russa, dei uma vasculhada e nao o encontrei online. Se achar, aviso aqui no blog.
    abs!

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