Vc é o que pensa ser – não o que os outros vêem


Sem muita chance de ir ao cinema ultimamente, tenho me dedicado a pegar de dois a três DVDs por semana para tentar tirar um pouco o atraso. E nessa leva, sempre incluo um clássico a ser revisto, pra não perder a noção do bom cinema: outro dia foi Zelig (1983), pseudo-documentário de Woody Allen. Esta semana foi outra obra-prima, Muito Além do Jardim (1979), último filme de Peter Sellers.

Quem só conhece a faceta cômica de Sellers, mais conhecido como o Inspetor Clouseau, vai se espantar com o brilhantismo dramático do ator neste filme. Ainda assim é uma comédia, mas intrigante e até ácida por vezes. Basicamente é a história de um jardineiro sem passado que passou a vida assistindo TV. Quando seu patrão morre, é despejado e, por obra do acaso, é resgatado das ruas de Washington DC pela personagem de Shirley MacLaine. Chance/Sellers passa a intrigar a todos, cada um o vê de uma forma e interpreta seus atos e poucas falas de forma diferente.

Duas cenas em particular são antológicas: a que Eve/MacLaine tenta seduzir Chance/Sellers em seu quarto e tem um orgasmo em cima de um tapete de urso, enquanto ele faz posições de ioga que vê na TV, e a de Chance saindo da casa do ex-patrão, logo no início do filme, ao som da versão funkeada de Eumir Deodato para Also Sprach Zarathustra, tema de 2001, Uma Odisséia no Espaço. Confira esta última abaixo (não se esqueça de pausar a rádio Escriba pra não atrapalhar):

(Ei, ei, não vai embora ainda. Saca só: procurando um link para o filme 2001, achei esta interessante animação em flash que se propõe a explicar a obra criada em 1968 em conjunto por Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. Se vc não leu o livro nem conseguiu ver o filme até o final (ou não entendeu patavinas), é a sua chance de ter uma idéia do que Kubrick e Clarke tinham em mente. Boa viagem! E como este provavelmente é o meu último post do ano, FELIZ 2008!!)

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Mais Sócrates, menos Friedman

No Natal de mais alto consumo em 10 anos também houve espaço para manifestações anti-consumo. Papais noéis ativistas invadiram o Rio-Sul, no Rio de Janeiro, para provocar socraticamente as pessoas que circulavam pelos corredores do shopping. “Vc consome ou é consumido?”, perguntavam os bons velhinhos aos incrédulos de carteiras cheias e cabeças vazias que circulavam alucinados pelos corredores em busca de um alento numa TV nova ou em mais um brinquedo para o mimado pirralho parar de encher o saco.

A venda de carros também vai de vento em popa no Brasil, foram quase 2,5 milhões este ano. E segundo estudo realizado por cientistas da Universidade Oxford Brookes, o mundo produzirá mais carros nos próximos 25 anos do que em toda a história da indústria automobilística! O resultado a gente sente nas ruas e no ar que respiramos. Estima-se que em novembro de 2012, São Paulo terá o engarragamento final – com ou sem rodízio.

Nos EUA, 99% do que é comprado vai para o lixo em seis meses. O Brasil chega lá, ô se chega… Empresas gastam os tubos em anúncios mostrando o quão responsáveis e sustentáveis são, desde que isso tudo não interfira em seus negócios, claro. Consumo sustentável, só se for do jeito deles – depois a tecnologia resolve, afirmam categoricamente.

E a imprensa dá corda. Viu a Superinteressante especial que está nas bancas? Ambientalismo bom é aquele que não muda nada do que vem sendo feito, apenas espera o milagre tecnológico chegar e nos salvar. É o mesmo discurso de Bush Jr. e companhia.

A certa altura da matéria de capa, a sardinha amestrada dos (tu) barões da editora Abril afirma com todas as letras: proibir tecnologias poluidoras, que ameaçam o meio ambiente e nossas vidas, seria como proibir o telégrafo para que o telefone tivesse vez. Só não entendi qual a ameaça que o telégrafo representava em seu tempo… E as demais matérias vão pela mesma linha, sempre tangenciando o real problema: ou mudamos o jeito como lidamos com o planeta agora, ou vamos todos para o buraco.

Não à toa a revista é recheada de anúncios de empresas petrolíferas, automotivas, telefonia, bancos, etc. Me entristeceu muito ver um anúncio do Greenpeace na última capa. Sei que foi doado, pois o grupo não paga publicidade. Mas aquele ter o anúncio ali é como se o Greenpeace avalizasse tudo o que está escrito na publicação – e é justamente o oposto!

A tecnologia limpa e sustentável só vingará na indústria, agricultura, no mercado consumidor se rigorosas medidas regulatórias forem tomadas, obrigando esses setores se adaptarem. Foi assim com a proibição do despejo de lixo nuclear nos oceanos e o banimento do gás CFC (que destruía a camada de ozônio) e do DDT, entre outros. Se deixarmos tudo nas mãos do deus mercado (e dermos ouvidos ao seu papagaio de pirata, a imprensa), não vamos sair do lugar.

Precisamos de mais Sócrates e menos Milton Friedman.

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Vida real

Dedé se foi. Dois dias antes do Natal, amanheceu no fundo da gaiola. Acho que já estava doente quando chegou aqui, semana passada. Martim me garante que a maritaca olhou pra ele enquanto a levávamos para o veterinário. Disse a ele que Dedé estava se despedindo.

“Ela morreu, pai?”, perguntou ele, com os olhinhos cheios de lágrimas e voz trêmula.

“Sim, filho, morreu…”

“Mas amanhã ela vai ficar bem, né?”

“…”

Mais uma figurinha pro álbum da experiência de Martim. E ainda faltam tantas…

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Quatro ases e um coringa (II)

Mais um programa da rádio Escriba dedicado a quatro ases da música e um coringa. Vamos lá:


Robert Plant – O Led Zeppelin voltou mas, apesar de ser fã do grupo, não me interessei nem um pouco. Não me ligo muito nesses retornos ectoplasmáticos de antigas bandas (Police, Led, Pink Floyd, etc), por nada acrescentarem ao que já foi feito. Prefiro saber o que esse pessoal tem de novo pra apresentar. Pra vc ver: o hype criado em torno do novo show do Led fez o desserviço de eclipsar um dos grandes lançamentos deste ano, o disco Raising Sand, uma parceria entre Plant e a violinista Alison Krauss. Escolhi três faixas desse disco belíssimo – e uma do Led, claro, pra não parecer que renego o passado do cara.

Tim Maia – Na esteira do lançamento do livro Vale Tudo – O Som e a Fúria, de Nelson Motta, sobre a vida e obra do síndico da música brasileira, deixo aqui minha homenagem a este que foi um dos mais importantes cantores e compositores da música brasileira. Ralou muito pra conseguir um lugar ao sol, desde os tempos da Tijuca, na década de 1960, quando circulava ao lado de Roberto Carlos, Jorge Ben, Wilson Simonal, Erasmo Carlos e outros. Só conseguiu depois de voltar dos EUA, de onde foi deportado. E apesar da fama de loucão, era determinado e meticuloso. Mas mentia um pouco às vezes…

Rory Gallagher – Se o irlandês é o negro da Europa, Rory Gallagher é sua melhor expressão musical (ao lado de Van Morrison). Ele morreu em 1995 depois de uma série de complicações devido ao alcoolismo. Um dos guitarristas mais vibrantes que já ouvi. Sua voz soava como que curtida em litros e mais litros do uísque e o som que tirava de sua guitarra Stratocaster (a primeira da Irlanda, em 1960) o levou a ser considerado pela Melody Maker em 1972 o músico do ano, destronando ninguém menos do que Eric Clapton.

Yusef Lateef – Um dos discos que mais escutei nos últimos dois anos foi Eastern Sounds (deixa tocar The Plum Blossom e vc vai entender). Esse saxofonista americano está com 87 anos e continua firme e forte experimentando novos sons e nunca se entregando ao comodismo tão comum em artistas que construíram uma carreira brilhante. Falei saxofonista, mas o cara toca praticamente qualquer instrumento de sopro – flauta, oboé, pífano, clarineta e uma dúzia de outros, muitos deles de origem árabe/asiática. Sua fama está justamente na mescla de música oriental com o jazz/blues na década de 1960. Mas ele não parou aí – tem blues, gospel, funk, até rock. Acho que vou ali escutar Eastern Sounds de novo e já volto…

Sérgio Sampaio – Quem melhor do que esse capixaba para ser o coringa da vez? Conhecido pelo sucesso Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, Sérgio foi um grande ‘enfant terrible’ da MPB e pagou com o ostracismo. Compôs várias músicas com Raul Seixas e poderia ter sido o grande parceiro deste, mas quis o destino que Raul fizesse sucesso ao lado de Paulo Coelho. Participou do projeto Grã-Ordem Kavernista em 1971 com Raul, Miriam Batucada e Edy Star, e teve um disco produzido pelo maluco beleza – justamente o primeiro LP, Eu Quero É Botar… Dei preferência aqui, no entanto, ao disco Cruel, de 2006, produzido por Zeca Baleiro com 12 canções inéditas em gravações caseiras remasterizadas. São três músicas desse trabalho e uma do primeiro disco.

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Saudações Greenpeaceanas!

Ontem teve festinha de fim de ano aqui do Greenpeace e foi uma farra e tanto. Emocionante também. A organização comemorou 15 anos de Brasil e a festa girou em torno do tema. Teve bolo, valsa (Danúbio Azul, claro) e projeção de fotos – fomos convidados a enviar uma de quando tínhamos essa idade. A que eu mandei foi esta aqui:

jorge.jpg

Estava em Rouen, na Normandia, em 1983. Casacão maneiro, não? Já o resto… enfim.

Depois do slideshow com as fotos bizarras de todos, passaram um vídeo que já é um clássico no Youtube, com várias ações e momentos marcantes do Greenpeace desde 1971, quando um grupo de jovens idealistas foi ao Oceano Pacífico a bordo de um pequeno barco para protestar contra os testes nucleares americanos.

Apesar do pouco tempo que estou na organização, me sinto em casa. Gosto do que faço, das pessoas com quem trabalho e dos propósitos do grupo. Amo essa família e espero poder contribuir cada vez mais com ela. Junte-se a nós!!

Isso é Greenpeace:


(já pausou a rádio Escriba? Não? Então vá lá!)

BOAS FESTAS!!

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Jornalismo é uma piada

É fato! Duvida? Então saca só algumas das histórias que o jornalista Maurício Menezes conta em apresentações Brasil afora. Já vi um show do cara e é de chorar de rir. Pena que nesse vídeo que encontrei no YouTube não tem uma das melhores, com um mico de sua própria lavra.

Numa entrevista coletiva na Arquidiocese do Rio de Janeiro, o cardeal dom Eugênio Salles não pode comparecer e foi substituído pelo assessor de imprensa Adionel Carlos. Lá pelas tantas, o Maurício pede para fazer uma pergunta e manda ver: “Há quanto tempo o senhor é Adionel?”. Ninguém entendeu a pergunta, muito menos o próprio Adionel. “Como assim?”

“Eu quero saber quando o senhor assumiu o adionelato.”

“Desde sempre, meu filho, mas…”

“Ah tá, então é hereditário…”

Os coleguinhas presentes bem que tentaram avisar o Maurício que Adionel era o nome do sujeito, não um cargo da Igreja, mas em vão. “Deixem-me fazer a pergunta e ele responder, não interrompam!”, protestou, veementemente.

Se tiver a chance de ver um show desse cara, não perca, é diversão garantida.


(já sabe, né? pause a rádio Escriba!)

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Uma maritaca em meu caminho

Meu filho e a babá acharam um filhote de maritaca na rua e trouxeram pra casa. Parece que tá com a asa quebrada ou cortada. Mas esse é o menor dos problemas. Martim quer ficar com o bicho e eu não consigo convencê-lo do contrário. Espero que o veterinário consiga. Ou o Ibama.

Caso contrário, meu futuro será um inferno

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Rito de passagem

Estava para começar a escrever sobre a palavra w00t, usada por aficcionados por jogos online para expressar grande alegria, e a nova linguagem quase criptográfica que vem surgindo graças à internet (e não estou falando do famigerado miguxês) quando um amigo me envia pelo comunicador do gmail este link. Antes que vc clique nele ou siga lendo este post, devo avisar que há possibilidade de encontrar cenas altamente grotescas. É sério, acredite. Se vc é fraco do estômago, acha um absurdo, coisa do dêmo ou coisa parecida, NÃO CLIQUE NO LINK!!

Bom, vamos lá. Eu cliquei. Pouco mais de um minuto depois, fiquei pasmo com o conteúdo do vídeo conhecido como 2 Girls 1 Cup (leia este link antes de clicar lá em cima, para ter uma idéia do que estou falando). É a coisa mais nojenta que já vi na minha vida. Junta O Exorcista, Seven e qualquer filme Z podreira e vc não chegará nem perto.

Mas a internet tem razões que a própria razão desconhece e o vídeo se transformou num dos mais perfeitos virais já feitos. Espontâneamente, centenas de pessoas inundaram o Youtube e congêneres com outros vídeos de pessoas que são desafiadas a assistir o tal 2 Girls 1 Cup. Nestes não são mostradas uma única imagem do vídeo original, apenas o desafiado sentado em frente a um laptop. E ele não tem a menor idéia do que estar por vir. O vídeo começa (vc sabe pela musiquinha que começa a tocar) e os sorrisos se transformam em expressões de terror, nojo, incredulidade. No final, risadas nervosas. Selecionei alguns, dos mais engraçados. São inofensivos, pode assistir na boa.

Não sei porque vi nessa história toda algo dos antigos ritos de passagem, pelos quais temos que passar de tempos em tempos para realmente entender o mundo em que vivemos. Talvez 2 Girls 1 Cup seja o nosso zeitgeist, embalado numa escatológica e histérica gargalhada.

(pause a rádio Escriba antes de começar a ver os vídeos abaixo)

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Pro Estadão, motorista vale mais do que favelado

Não sou fã do Luis Weis, que escreve no Observatório da Imprensa e é editorialista do Estadão, e deixo claro isso lá na área de comentários do blog dele no OI. Mas hoje ele escreveu um texto primoroso em que trata da edição dos jornais de São Paulo sobre a desocupação de uma favela na Marginal Pinheiros pela PM. Chama-se O favelado e o motorista. Segue um trecho:

A ordenação dos fatos e das citações estabelece uma hierarquia jornalística – uma forma de ver e relatar um acontecimento. A configuração, no caso, pôs no topo da narrativa o efeito de um episódio da esfera dos choques sociais que incidiu sobre o maior problema cotidiano da cidade: a circulação. Maior porque nenhum outro atinge tantas pessoas durante tanto tempo a cada dia.

Mesmo assim, na contramão das coberturas óbvias, não seria impossível, muito menos amalucado, construir a informação privilegiando o drama humano dos sem-teto e sem-carro, em vez das atribulações – decerto exasperantes, porém não dramáticas – dos motoristas prejudicados. Ainda que estes fossem incomparavelmente mais numerosos e que o congestionamento em que se viram aprisionados tenha se irradiado para quase toda a cidade.

Por que não uma matéria que abrisse com a história, mais bem contada, da gestante que aspirou gás mostarda, em seguida ampliasse o foco para a expulsão dos favalados, e só então mergulhasse no congestionamento, com quantos detalhes achasse desejáveis para dar conta do transtorno por que passou a cidade?

Tive a mesma percepção quando li o noticiário hoje de manhã sobre a violenta ação policial na favela Real Parque. Fiquei estarrecido com a forma como o Estadão tratou o assunto, trabalhando a edição para enfatizar mais os transtornos causados no trânsito paulistano do que o drama das muitas famílias que foram enxotadas do local.

É, no entanto, apenas a comprovação de que o jornalismo praticado pelos principais grupos de mídia do país se afastou completamente das ruas, daí sua imperial indiferença aos dramas humanos que dela surgem. Do interior de um carro, a rua é mero cenário de passagem para os reizinhos de pés de barro.

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Em busca do console verde

God of War (Playstation3-Sony), Halo (XBox-Microsoft) e Mario Bros (Wii-Nintendo) se juntaram para o grande duelo de suas vidas: salvar o mundo das substâncias tóxicas dos consoles de jogos eletrônicos. O Greenpeace fez um vídeo bem maneiro juntando os três personagens e oferece ainda comparações entre o PS3, XBox e Wii sobre o uso de substâncias tóxicas, a política pública da empresa para a eliminação dessas substâncias e os programas de reciclagem de material tóxico.

Apesar de ser super econômico no uso de energia e revolucionário na forma como permite a interação com os jogos, o Wii é o que sai pior na foto. O melhor é o PS3.

Na página, vc ainda é convidado a enviar uma carta para o presidente de cada uma das empresas pedindo providências. O lixo eletrônico é um dos grandes problemas da atualidade e vem entulhando perigosamente aterros em países em desenvolvimento, principalmente na Ásia, causando problemas ao meio ambiente e às populações dos países.

O Greenpeace resolveu dar atenção especial aos consoles de jogos eletrônicos por ser um mercado em franca expansão. Em 2006 foram vendidos mais de 60 milhões de aparelhos, um crescimento de 14% em relação ao ano anterior.

Os consoles foram incluídos pela primeira vez na sexta edição do Guia de Eletrônicos Verdes do Greenpeace e as três empresas começaram nas últimas posições. O líder do ranking é atualmente a Sony Ericsson.

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