Adeus à voz do morro

“Já vivi muito, estou no lucro. Quero é que o mundo acabe em melado para eu morrer doce”(Jamelão, em 2005)

Morreu neste sábado, aos 95 anos, uma das voz mais marcantes da música brasileira, José Bispo Clementino dos Santos – ou simplesmente Jamelão. Vi um show dele – ou parte dele, já que cheguei bem atrasado – aqui em São Paulo, no Bar Brahma. Tem um trechinho no iutuba:

Mangueirense de primeira hora, melhor intérprete de Lupicínio Rodrigues (segundo o próprio), sempre que entrava com a escola na Marquês de Sapucaí encantava a todos com seu vozeirão. Uns o achavam marrento, outros, um deus. O que sei é que vai fazer uma falta danada…

E segue mais uma preciosidade: Jamelão e Chico Buarque cantando Piano na Mangueira (de Tom Jobim e Chico), numa autêntica roda de samba, daquelas que só é possível testemunhar subindo o morro. Não se esqueça de desligar a rádio pra curtir o som aqui.

Publicado em musica | 1 Comentário

Viva Che!

Este sábado, Che Guevara estaria completando 80 anos. Para celebrar a data, o governo cubano preparou uma linda página, Che 80, com muitas fotos, documentos e cartazes criados por artistas locais para celebrar a data (alguns dos quais ilustram este post). Há também uma seção, Palabra Viva, com músicas dedicadas a ele e alguns de seus mais famosos discursos, como o proferido na ONU em 1964 (um trecho dele pode ser visto no Youtube).

De minha parte, vou também curtir Hasta Siempre, na voz de Carlos Puebla, compositor cubano que fez a música depois de ouvir, em 1965, o discurso de Fidel Castro com o anúncio de que Che estava deixando Cuba para viajar o mundo em nome da revolução.

(Tu já sabe, né? Desliga a rádio pra curtir o vídeo numa boa)

Publicado em arte | 2 Comentários

Louco de ouro

Fiquei sabendo hoje sobre a morte de Austregésilo Carrano Bueno, numa comunidade do Orkut. Para quem não ligou o nome à pessoa, o cara é autor do livro Canto dos Malditos, que inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski. Meu camarada Fábio José de Mello entrevistou Austregésilo tempos atrás para a AllTV e pedi para ele um relato desse encontro, como homenagem ao sujeito e sua luta contra os manicômios.

Segue abaixo o texto:

Morreu na tarde de 27 de maio, aos 51 anos, Austregésilo Carrano Bueno. Infecção generalizada, em razão de um câncer no fígado. No corredor do Hospital das Clínicas, em São Paulo, à espera de uma vaga na UTI. Carrano é autor do livro “Canto dos Malditos”, que inspirou o filme “Bicho de Sete Cabeças“, de Lais Bodanski. A obra, que recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, até hoje está censurada. Não pode ser encontrada em nenhuma livraria. (Nota d’O Escriba: encontrei o livro à venda no site da Editora Rocco. Ele foi realmente retirado de circulação em 2003, por ordem da Justiça, mas uma nova decisão permitiu a sua reedição em 2005.)

Juntamente com o jornalista José Paulo Lanyi, eu o entrevistei na sede da AllTV. Cabelos longos e encaracolados, vestia uma camisa vermelha e calça jeans. O assunto: seu envolvimento no Movimento da Luta Antimanicomial.

Esperava encontrar um cara amargurado, revoltado e de mal com a vida. Nada disso. Me pareceu uma figura doce, porém ciente de que fora vítima da ignorância e do preconceito da sociedade contra os usuários de droga, e firme no propósito de acabar com as internações à força, contra a vontade do paciente.

Tudo aconteceu em 1974. O pai de Carrano encontrou uns cigarrinhos de maconha no bolso da jaqueta do filho. Mesmo assumindo a condição de usuário eventual, Carrano foi internado em um hospital psiquiátrico na capital paranaense. Começava ali o drama de um jovem de 17 anos, que teve a adolescência violentamente interrompida, à base de eletrochoques (eletro-convulsoterapia) e doses cavalares de medicamentos tarja-preta. O calvário durou três anos e meio, até que, não agüentando mais o sofrimento, decidiu pôr fogo na cela em que estava enjaulado. “Os choques eram tão violentos que me faziam desmaiar. Se não desmaiasse, a voltagem era aumentada até que eu perdesse os sentidos”, me disse ele. Foram 21 sessões de tortura. A tensão variava dos 180 a 460 volts. Direto na têmpora.

Carrano perdoou o pai, já falecido. Ele entendeu que a internação no Hospital Bom Retiro era a única opção que a família, ao modo dela, tinha para tentar ajudá-lo. De boas intenções, os hospitais psiquiátricos estavam cheios naqueles tempos. Assim como o bolso dos proprietários dos manicômios. A briga dele era com os médicos que o torturaram. A peleja acabou na justiça, que condenou o escritor, por “danos morais”, a pagar R$ 60 mil aos seus algozes. De quebra, exigiu a retirada do “Canto” das livrarias. (Nota d’O Escriba: encontrei um texto de 2003 em que o próprio Carrano comenta o processo judicial que enfrentou. Para ler, clique aqui.)

Em 2003, ele foi homenageado pelo Ministério da Saúde e pelo presidente Lula, por sua “luta e empenho na construção da Rede Nacional de Trabalhos Substitutivos aos Hospitais Psiquiátricos no Brasil”.

Em um canto qualquer da internet, o comentário anônimo retrata bem o que esse cara representava: “Os loucos deviam criar um prêmio para dar ao Carrano: o Louco de Ouro.” Concordo plenamente.

Valeu, Austry. Acenda um aí no céu.

Publicado em drogas | 6 Comentários

Bomba nuclear

Dias atrás o jornal O Globo publicou editorial afirmando que chegou a hora do governo brasileiro partir para a conclusão da usina nuclear Angra 3. Diz que a energia nuclear se tornou uma boa alternativa, depois que foram “vencidos os preconceitos e as reações negativas dos ambientalistas”, e que ela foi devidamente testada e aprovada no Brasil. Afirma ainda que Angra 3 foi recomendada por seu vantajoso aspecto econômico (sic). Esse pessoal definitivamente vive num mundo paralelo.

Nas páginas da publicação carioca – e da imprensa brasileira em geral, que fechou questão em torno do assunto -, só há espaço para a cartilha pró-nuclear. O trabalho da Hill & Knowlton nos EUA rompeu fronteiras e conquistou corações e mentes entre os (tu) barões da mídia tupiniquim. Por aqui você não verá reportagens como esta da Salon sobre os muitos furos dessa pretensa renascença nuclear, principalmente em relação ao custo. Ou sobre os muitos problemas enfrentados pela França, país que tem mais de 70% de geração de energia por reatores atômicos, conforme explica este artigo do Boletim dos Cientistas Atômicos.

Há quem diga que o mundo deveria seguir o exemplo francês e se render de vez à energia nuclear. Os franceses pensam o contrário. De acordo com recente pesquisa de opinião encomendada pela Comissão Européia, 2/3 da população francesa é favorável a uma redução das usinas nucleares em seu país. Mas lá, como cá, o desejo da população não encontra muito eco entre os políticos – e muito menos na imprensa.

Publicado em imprensa | 3 Comentários

Novos vizinhos

Gabriela Boeing, voando baixo, anuncia o nascimento do blog Altos Decibéis, diretamente de Londres. Boa pedida. E de lá fui pro Reverb, do meu camarada Calazans. Ambos dedicados à música, shows e afins e desde já catalogados na listinha aí do lado.

Publicado em blog | 1 Comentário

Roda morna

O cartunista Caruso resumiu bem a entrevista do Carlos Minc dada ontem no Roda Viva com uma charge em que aparecem várias palavras e siglas ligadas ao tema meio ambiente ditas pelo ministro e uma grande interrogação vinda da bancada dos jornalistas escalados para o programa. Com exceção de Michel Astor, correspondente da Associated Press, que mostrou estar preparado para discutir com conhecimento de causa os assuntos tratados, os demais coleguinhas patinavam nas perguntas, procurando muitas vezes mais a futrica do que o esclarecimento de temas relevantes como desmatamento na Amazônia, Angra 3, transgênicos, desenvolvimento sustentável, etc.

E ainda ficaram de fora assuntos importantes como a recente reunião da ONU sobre biodiversidade, em Bonn (que contou com a participação de Minc); o envio ao Congresso, com 16 anos de atraso, do projeto de lei para a criação de uma Política Nacional de Combate às Mudanças Climáticas; e o boicote sistemático do governador Blairo Maggi a qualquer tentativa de se interromper o desmatamento na Amazônia.

Se deixassem só as perguntas dos telespectadores enviadas por email, o programa ficaria bem mais interessante. Os temas mais quentes vieram deles. Fica então a sugestão: se os jornalistas mais tarimbados não puderem comparecer num próximo programa, convidem os telespectadores para a bancada!

ADENDUM: A Lucia Malla, minha companheira lá no Faça a Sua Parte, observou em seu blog que achou o Minc muito político, muito ensaboado. Ela participou do Roda Viva, enviando mensagens pelo Twitter. Numa troca de emails hoje, conversamos sobre o assunto e eu observei o seguinte: o Minc tem todo traquejo de político e eu acho isso importantíssimo para o sucesso das demandas ambientais. Sem esse jogo de cintura, Minc seria engolido por cobras-criadas da política. Ele é um ambientalista atuando na política e não um político maquiado de verde, como temos vários por aí…

Fui durante anos seu eleitor no Rio de Janeiro e acho que ele pode se sair bem como ministro. Mas vamos ver as cenas dos próximos capítulos…

Publicado em Meio Ambiente | 5 Comentários

Internet é link!

John McCain, candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, é o grande fantasma das próximas eleições americanas e por isso a galera que não quer aturar mais quatro anos da era Bush Jr. está usando de todas as armas disponíveis para impedir sua vitória em novembro. A internet, claro, é campo fértil para idéias das mais criativas, como um bombardeio Google que tem como matéria-prima nove artigos e matérias que revelam o que McCain tem de pior.

A bagaça é simples – e por isso mesmo brilhante: sempre inserir o link de um dos nove textos indicados quando for escrever as palavras John McCain ou simplesmente McCain na internet. A meta é colocar os textos entre os 10 links mais indicados pelos buscadores (Google, Yahoo, etc) quando alguém pesquisar John McCain. E como boa parte dos eleitores americanos procuram informações sobre os candidatos pela internet… bingo!

Ativismo político online na veia!

Publicado em internet | 4 Comentários

Isto non ecxiste!

Quem nunca recebeu por email fotos, textos e correntes com histórias mirabolantes de modelos hiper-esqueléticas, sereia encontradas após um maremoto, chupa-cabras, imagens do acidente com avião da Gol, e por aí vai? Muitas delas são difíceis de saber se são reais ou falsas. Tá na dúvida? Corre lá no E-Farsas e tira a prova! Padre Quevedo certamente aprovaria!

Publicado em internet | 12 Comentários

A música sempre redime

null
Tava frio, chuva fina, lama, um trânsito do cão (se deixar, os paulistas comem, dormem e fazem tudo o mais dentro de carros), dois filhos inquietos, mas quando Herbie Hancock começou a tocar Chameleon, no final da tarde de ontem (domingo) no Parque Villa-Lobos, tudo ficou mais leve.

Foi a primeira vez de Martim e Sofia no mundo dos shows ao vivo. E que estréia!

Abaixo, Chameleon tocada por Hancock e sua banda Headhunters, do disco homônimo, num show em Chicago em 1974. Som poderoso, vale conferir as duas partes do vídeo:

(Não se esqueça de desligar a rádio do blog antes de pôr o som aqui pra rolar)

Publicado em musica | 1 Comentário

O Dia D da raposa de fogo

Como promoção do novo Firefox 3, o pessoal do Mozilla quer bater o recorde de downloads de um mesmo programa no período de 24 horas. A data de lançamento ainda não foi anunciada, mas você pode se inscrever na página para receber o aviso. Mais de 300 mil internautas já se inscreveram. No Brasil, por enquanto, cerca de 20 mil. Mais um agora, claro!

Publicado em internet | 2 Comentários