Morreu na tarde de 27 de maio, aos 51 anos, Austregésilo Carrano Bueno. Infecção generalizada, em razão de um câncer no fígado. No corredor do Hospital das Clínicas, em São Paulo, à espera de uma vaga na UTI. Carrano é autor do livro “Canto dos Malditos”, que inspirou o filme “Bicho de Sete Cabeças“, de Lais Bodanski. A obra, que recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, até hoje está censurada. Não pode ser encontrada em nenhuma livraria. (Nota d’O Escriba: encontrei o livro à venda no site da Editora Rocco. Ele foi realmente retirado de circulação em 2003, por ordem da Justiça, mas uma nova decisão permitiu a sua reedição em 2005.)
Juntamente com o jornalista José Paulo Lanyi, eu o entrevistei na sede da AllTV. Cabelos longos e encaracolados, vestia uma camisa vermelha e calça jeans. O assunto: seu envolvimento no Movimento da Luta Antimanicomial.
Esperava encontrar um cara amargurado, revoltado e de mal com a vida. Nada disso. Me pareceu uma figura doce, porém ciente de que fora vítima da ignorância e do preconceito da sociedade contra os usuários de droga, e firme no propósito de acabar com as internações à força, contra a vontade do paciente.
Tudo aconteceu em 1974. O pai de Carrano encontrou uns cigarrinhos de maconha no bolso da jaqueta do filho. Mesmo assumindo a condição de usuário eventual, Carrano foi internado em um hospital psiquiátrico na capital paranaense. Começava ali o drama de um jovem de 17 anos, que teve a adolescência violentamente interrompida, à base de eletrochoques (eletro-convulsoterapia) e doses cavalares de medicamentos tarja-preta. O calvário durou três anos e meio, até que, não agüentando mais o sofrimento, decidiu pôr fogo na cela em que estava enjaulado. “Os choques eram tão violentos que me faziam desmaiar. Se não desmaiasse, a voltagem era aumentada até que eu perdesse os sentidos”, me disse ele. Foram 21 sessões de tortura. A tensão variava dos 180 a 460 volts. Direto na têmpora.
Carrano perdoou o pai, já falecido. Ele entendeu que a internação no Hospital Bom Retiro era a única opção que a família, ao modo dela, tinha para tentar ajudá-lo. De boas intenções, os hospitais psiquiátricos estavam cheios naqueles tempos. Assim como o bolso dos proprietários dos manicômios. A briga dele era com os médicos que o torturaram. A peleja acabou na justiça, que condenou o escritor, por “danos morais”, a pagar R$ 60 mil aos seus algozes. De quebra, exigiu a retirada do “Canto” das livrarias. (Nota d’O Escriba: encontrei um texto de 2003 em que o próprio Carrano comenta o processo judicial que enfrentou. Para ler, clique aqui.)
Em 2003, ele foi homenageado pelo Ministério da Saúde e pelo presidente Lula, por sua “luta e empenho na construção da Rede Nacional de Trabalhos Substitutivos aos Hospitais Psiquiátricos no Brasil”.
Em um canto qualquer da internet, o comentário anônimo retrata bem o que esse cara representava: “Os loucos deviam criar um prêmio para dar ao Carrano: o Louco de Ouro.” Concordo plenamente.
Valeu, Austry. Acenda um aí no céu.