“Deseja anular sua conexão?
Emília aceitou e deixou suas mãos aferradas ao encosto da cadeira de vime. Apertou o entrelaçado até fazê-lo estalar, marcando-o de forma indelével. Um aviso em vermelho saltou na tela: ‘Conexão finalizada”. Era a primeira vez que Emília via algo tão grande e vermelho em seu computador e seu corpo não parecia capaz de responder a nenhum novo estímulo. Ficou imóvel, exausta de tanto espanto e abuso. O kentuki a olhava da outra ponta da mesa, parecia julgá-la com uma reprovação que Emília já não estava disposta a suportar. Teve uma repentina lembrança de Klaus: ele havia lhe mostrado como se matavam as galinhas na vida moderna. Emília ergueu a coelha, levou-a para a cozinha e a meteu na pia. Quando a soltou para abrir a torneira, o kentuki tentou se safar, mas ela o pegou com força pelas orelhas e, com todo o rancor e frustração de que era capaz, o enfiou sob o jorro d’água. A coelha gritou e esperneou, e Emília se perguntou o que seu filho pensaria se pudesse vê-la naquele momento, como sentiria vergonha dela se visse suas mãos firmes segurando a coelha debaixo d’água, tapando-lhe os olhinhos e afundando-a contra o ralo com toda a força, afogando-a até que a pequena luz verde da base parasse de tremular.”
Trecho do livro Kentukis (2021), de Samanta Schweblin.
