9/20 – Uma Balada do Mar Salgado – Hugo Pratt

“Sozinho, Corto repensou as palavras de Crânio. Tinha razão: aquela guerra distante provocava sua ressaca naqueles mares tranquilos. Os interesses contrapostos provocavam reações em cadeia que acabavam por envolver povos inocentes.

Mas agora tinha de pensar em si mesmo, decidir o que fazer da sua vida.

O Monge o havia acusado de não saber comandar, e afinal de contas era verdade, não lhe interessava mesmo; acusara-o de ser individualista e isso também era verdade. Mas por que deveria limitar-se a seguir uma corrente? Por que sujeitar-se a um esquema, a um exército, a um enquadramento? O perfume da vida sempre o havia guiado através das experiências, os países e os homens mais disparados. O jogo da vida era um jogo sutil, delicado, era jogado observando-se escrupulosamente as regras, mas com respeito. O respeito pela liberdade, tanto a própria como a dos outros, a liberdade de julgamento, mas sobretudo a de comportamento. As gaivotas voavam livres naquele céu alaranjado e turquesa, e o oceano se abria, convidativo, naquele horizonte infinito. A fantasia o arrastava para longe, longe daquela cabana, mas ainda teria que esperar um pouco.

(…) Eram loucos, mas tinham também toda a força de modificar suas vidas, de adapta-las a situações diversas, tendo sempre em vista um horizonte longínquo, incerto e nebuloso. Quem persegue um sonho não deseja, em realidade, a sua realização, mas quer somente poder continuar a sonhar. No horizonte daquele oceano haveria sempre uma outra ilha, para abrigar-se durante um tufão, ou para repousar e amar. Aquele horizonte aberto estaria sempre ali, como um convite permanente.”

Trecho de Uma Balada do Mar Salgado, livro de Hugo Pratt (1995)

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