Pai do LSD faz última viagem, aos 102 anos

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Em entrevista concedida ao New York Times em janeiro de 2006, o químico suíço Albert Hofmann afirmou que o LSD – substância alucinógena que descobriu há 63 anos num laboratório da Sandoz – não aprofundou seu conhecimento da

morte. “Eu simplesmente vou voltar para o lugar de onde vim, para onde eu estava antes de nascer, só isso.”

Hofmann morreu nesta terça-feira em Burg, na Basiléia (Suíça). Grande figura. Deixou de trabalhar como químico e se tornou filósofo místico, graças às inúmeras experiências que teve com o LSD ao longo dos anos. Chamava sua criação carinhosamente de ‘medicina para a alma’ e defendia a continuação de estudos e pesquisas sobre os efeitos da droga no cérebro humano e o seu uso na psicanálise bem como no tratamento de distúrbios mentais graves. Considerava sem sentido a proibição do LSD e substâncias alucinógenas similares como a mescalina.

Navegando pela internet, encontrei a tradução do prefácio que ele escreveu para o livro Moksha, de Aldous Huxley. Esse livro é uma compilação de textos, artigos, entrevistas e palestras do escritor inglês sobre drogas psicodélicas e experiências visionárias. Huxley era um estudioso do assunto e, quando morreu (em 1963), pediu à mulher que lhe desse uma última dose de LSD no leito de morte.

Segue um trecho do prefácio:

Aldous Huxley dispôs-se a demonstrar como o poder interior dessas drogas sacramentais poderia ser usado para o bem-estar de pessoas que vivem numa sociedade tecnológica hostil a revelações místicas. Os ensaios e conferências reunidos neste volume vão permitir uma melhor compreensão dessas idéias. Na opinião de Huxley, o uso de psicodélicos devia ser parte de uma técnica de “misticismo aplicado” que ele descreveu para mim numa carta de 29 de fevereiro de 1962 como “Uma técnica para ajudar as pessoas a aproveitar o máximo de sua experiência transcendental e a usar suas percepções do ‘outro mundo’ ao lidar com ‘este mundo’. Meister Eckhart escreveu que ‘o que é recebido em contemplação tem que ser distribuído em amor’. Essencialmente é isto que deve ser desenvolvido – a arte de distribuir em amor e inteligência o que é recebido em visões e na experiência de autotranscendência e solidariedade com o universo.”

Em seu último e mais comovente livro, o romance utópico A ilha, Aldous Huxley descreve o tipo de estrutura cultural na qual os psicodélicos – chamados, em sua narrativa, medicina-moksha – poderiam ser aplicados de maneira benéfica. Moksha é, portanto, um título bem apropriado para este livro, pelo qual devemos agradecer aos seus organizadores.

Moksha é uma palavra sânscrita que refere-se à libertação do ciclo do renascimento e da morte. É, para os hindus, a transcendência do fenômeno de existir.

Boa viagem, Hofmann!

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6 Responses to Pai do LSD faz última viagem, aos 102 anos

  1. Avatar de Izabela Izabela disse:

    Por falar em viagem: esse video é sensacional. Vale dar uma conferida!
    http://www.whitehouseanimationinc.com/kunstbar.htm

  2. Avatar de escriba escriba disse:

    Muito bom, Izabela!! Pena que não tem como ‘embutir’ aqui no blog, né? Ou tem?
    bjs!

  3. Avatar de Izabela Izabela disse:

    Se tem eu não sei como. Recebi por e-mail. Ainda não sou uma multimidia… (rs)

  4. Avatar de libertários libertários disse:

    O mundo perdeu um grande cientista e humanista.

  5. Avatar de escriba escriba disse:

    pois é… queria publicar um documentário sobre ele que me foi sugerido, mas só achei a versão original, em alemão. Ninguém aí sabe se tem uma versão legendada ou no mínimo dublada em inglês?

    Vou tentar um torrent da vida…

  6. Avatar de Desconhecido O Escriba » LSD, o filme disse:

    O Escriba » LSD, o filme

    […] famoso por ter descoberto o LDS acidentalmente em 1943, nos laboratório da Sandoz na Suíça. Ele morreu em abril deste ano, aos 102 anos na Suíça, onde viveu boa parte de sua […]

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