À invisilibilidade

Passei o dia com a desagradável sensação de ser um loser. Bombardeado durante a madrugada anterior pela engenhosidade publicitária que engorda as páginas da Wired deste mês, não pude evitar uma certa ansiedade, que quando menos se espera, vira inveja. Ficou mais forte no momento em que vi um belo anúncio comemorativo da Porsche… Sei que não preciso de uma máquina dessas, mas a vida moderna teima em girar quase que exclusivamente em torno do que se pode ter – não importa o quanto já se tem, nem se é preciso ter. Natureza humana?

Em meio às novidades do mundo techie, divaguei sobre vencedores e perdedores, sobre conquistas e derrotas, homens, chimpanzés e bonobos, e quando me dei conta, estava questionando minha vida, meu sucesso, minha existência, a morte, o fim – penso, logo morro um dia. Segue o jogo…

Mas um filme água-com-açúcar na TV me salvou esta noite. Uma Canção de Amor para Bobby Long (em inglês fica mais bonito, A Love Song for Bobby Long), com John Travolta e Scarlett Johansson. A Ana jura que viu meus olhos marejarem, mas eu nego de pés juntos. Apenas, como direi, encontrei respostas onde menos esperava e isso me emocionou.

Sou um invisível – talvez não par excellence, mas de alma com certeza – e ainda não aceitei isso. Daí, a ansiedade, a angústia. Não estou no inferno do ócio vagabundo mas me mantenho longe do céu escravizado dos homens de bem. Não quero ser mais um a aplaudir temperamentos sórdidos.

Nunca devemos parar de explorar. Ao fim de todas nossas explorações, voltamos ao começo e conhecemos o lugar pela primeira vez, diz Travolta no final do filme, citando T.S. Eliot. E quanto menor for a bagagem, mais bem-sucedida será a jornada.

(Em tempo: o filme pode ser bobinho, mas a trilha sonora é bem legal, com artistas de Nova Orleans mandando ver no bom e velho blues. John Travolta canta duas músicas e não faz feio. Pelo contrário.)

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7 Responses to À invisilibilidade

  1. Avatar de Thiago Mattos Thiago Mattos disse:

    Este foi o post mais soturno q já li aqui, mas tenho percebido mesmo q parece haver uma bruxa solta por aí atormentando muita gente. A notícia boa é q a bruxa nao fica muito tempo e vai embora já já. É só uma faze mesmo…

    Good vibrations!

  2. Avatar de Vera Antunes Vera Antunes disse:

    Pode ter certeza que não é só você… a difeença é que o Universo nos dá (se estivermos atentos) oportunidades de ouvir, ler ou até ver um filme que nos trará resposta e o resto é resto. A vida continua…

    bj

  3. Avatar de Izabela Izabela disse:

    Engraçado abrir o site e ler seu comentario sobre o filme. Assisti não faz duas semanas e fui acometida por uma crise de insônia… Levantei no meio da noite porque precisava fazer algo com “aquilo”… Apenas escrevi:
    Hoje assisti a um filme que me fez costurar uma equação emocional. Uma equação emocional simples, mas para a qual ainda não tinha voltado minha atenção. O personagem principal, existencialista e excêntrico, preferia as pessoas invisíveis a vida real. Uma figura que se comunicava através da citação de pessoas que respeitava: músicos, escritores, pensadores… Enfim, tudo de repente me pareceu tão obvio e familiar. Competir pra mim sempre foi algo doloroso, cansativo, desinteressante, perverso. E agora isso me chega com ar de ironia. Tantos anos de terapia para descobrir que eu também prefiro o olhar dos outros. Tenho paixão pela vida, dos outros. Por isso gosto de comportamento, de tragédia e ascensão. Gosto da filosofia particular de cada um. Me alimento da vida dos outros. Não e bizarro? Sou uma hospedeira do existencialismo alheio. Sempre recuei antes de assumir um papel individual. Continuo recuando… porque me alimento de tudo que e vivo e a sensação e que se olhar pra mim vou perder o capitulo seguinte. Na tentativa de capturar aquilo que me alimentava eu deixei de ter objetivos e metas. Acho mesmo que desisti de tê-los. Influenciada também pelos teóricos e passantes que eu admirava ou com os quais dividia a mesma opinião: não consegui me apegar a nenhuma crença que justificasse a vida, nem mesmo a crença cientifica. Acho que decidi muito cedo que queria ser invisivel, principalmente depois de acompanhar o declínio da minha família, a solidão dos meus pais e a morte da minha avo. Hoje me apego ao lúdico e aos ensaios prontos, me apego as pessoas invisíveis e as visíveis eu observo de longe. Essa noite, depois do filme… eu descobri que não quero mais ser nada, alguma coisa mudou: eu preciso de um papel definido. Quero deixar de ser fantasma. Fico pensando em quantas pessoas preferem esse universo paralelo. Esse filme, “bobinho”, me encantou…

  4. Avatar de escriba escriba disse:

    Vc traduziu, com outras e melhores palavras, exatamente o que eu senti e tentei escrever. Só uma diferença. Vc quer deixar de ser fantasma; eu quero cada vez mais…
    ‘transmimento de pensação’ é isso aí!

  5. Avatar de Izabela Izabela disse:

    Hahaha! Mas sabe, acho que apesar de vc desejar a invisibilidade, vc esta muito longe disso. Vc tem sua profissão. Vc tem um espaço onde vc divide a sua voz. Vc influencia as pessoas. Posso dizer ate que vc tem um desses olhares que me fascinam. Pra mim, talvez ou de certa forma, vc e um personagem invisivel, com o qual as vezes me identifico e que constantemente aprecio. Eu sou mera espectadora. Não consigo imaginar vc, com tanto pra falar… assumindo o papel de fantasma.

  6. Avatar de escriba escriba disse:

    É verdade… mas a angústia interna é deveras ectoplasmática…
    Sou um fantasminha legal, com fases egotrípicas por vezes até vaidosas mas que curte também se fechar em copas e ficar só na contemplação.

  7. Avatar de Igor Cajaiba Igor Cajaiba disse:

    Amigo bucaneiro, eu que sempre espio, mas não dou as caras,me vejo obrigado a lhe escrever,pois vc traduziu em palavras uma série de sensações e questionamentos que rondavam minha mente mal resolvida. Bacana o link do filme, com nossas vidas e aspirações, losers…..me junto a vc no clube dos invisíveis.
    um abraço forte

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