Triste semelhança

“Para que as pessoas escutem, não adianta mais dar apenas tapinhas nas costas. Você tem que bater forte nelas com uma marreta, e aí você perceberá que tem toda a atenção delas.”

A frase acima bem que poderia ser do capitão Nascimento, o policial casca-grossa de Tropa de Elite que tanta polêmica tem causados nos últimos dias. Mas ela é do serial killer John Doe, interpretado com a costumeira maestria por Kevin Spacey em Seven, desconcertante filme de David Fincher que revi hoje na Warner (que diga-se de passagem picotou até não poder mais a obra, encurtando as cenas mais fortes). Os dois têm muito em comum: querem corrigir o mundo na marra, acreditam piamente que a violência, tortura e morte são a melhor forma de passar o recado, e não sentem culpa, pois estão convictos de que alguém tem que fazer o trabalho sujo – e ninguém melhor do que eles para levar a cabo a missão.

Não vou ao cinema ver o filme de José Padilha porque tenho certeza de que vou me irritar com as manifestações de apoio que o capitão Nascimento receberá a cada tapa, tiro ou distorcida lição de moral que dá. É até razoável (vi hoje pelo Google Video), mesmo sendo um sub-Cidade de Deus, versão policial. Mas seu grande defeito, pra mim, é passar acriticamente a mensagem da violência policial como redenção para o problema das drogas. Olho por olho e acabaremos todos cegos, já dizia Mahatma…

Independentemente de qualquer coisa, Tropa de Elite vai ser um grande sucesso de bilheteria e gerar inúmeros sub-produtos, até mesmo uma possível série de TV, quiçá bonecos falcon do capitão Nascimento. Até blog do capitão Nascimento já pintou, com direito a uma hilária carta-resposta do policial a Luciano Huck, que em artigo publicado na Folha protestou contra a falta de segurança em SP, indignado que ficou por ter tido seu relógio de US$ 48 mil roubado. O blog é bem divertido. Já esse filme que achei no Youtube, de crianças vibrando com o Caveirão em visita ao quartel do Bope, é no mínimo assustador…


A mente é seu próprio lugar e, em si, pode fazer um paraíso de inferno, um inferno de paraíso – trecho de Paraíso Perdido, de John Milton

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13 Responses to Triste semelhança

  1. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    …o problema do Brasil é achar que um filme é a verdade absoluta.

    Lembra quando disseram que Clube da luta era um facista? pois é, no país da novela e do pt, onde a ignorância é regra, essas coisas acontecem.
    “Quando a razão adormece, os monstros acordam” (Santo Agostinho)

  2. Avatar de escriba escriba disse:

    pois é, André, concordo contigo – pelo menos até a parte do país da novela.

    Já o PT tem dado exemplo para o mundo, meu caro. Viu Nova York? Adotou o Bolsa Família…

  3. Avatar de Thiago Mattos Thiago Mattos disse:

    Acho que o filme teve apenas o mérito de pôr em discussao algo que nao deve sair da pauta enquanto nao for resolvido: a legalizacao/descriminalizacao das drogas. Nao adianta também só culpar quem consome. Esse é um jogo de guerra sem fim enquanto nao mudarmos algumas regras.
    O filme também mostra a mentalidade das pessoas que aplaudem a violência, e como a violência ainda tem um forte apelo na sociedade como forma de solucionar problemas.

    Cinematograficamente falando, nao vi nada de mais. Além disso, ninguém aqui precisa ir ao cinema pra ver o que é a realidade cotidiana de muitas pessoas. É ou nao é?
    Essa imagem também construída em cima da incorruptibilidade é fake e nao resistirá muito tempo. Temos o exemplo absurdo das milícias (também aplaudidas por muitos).

    Nao podemos perder de vista que os problemas relacionados à violência, seja ela policial ou nao, nao seram resolvidos com mais violência, isso é claro. É só olhar pra trás e ver. Por isso, precisamos olhar pra frente nao esquecendo dos exemplos da história.
    Já dizia o profeta, gentileza gera gentileza.

  4. Avatar de Thiago Mattos Thiago Mattos disse:

    À propósito, o q sao aquelas legendas em inglês? =P

  5. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Aliás, por que a turma do Viva Rio (et caterva) não vai ao morro dos macacos e faz um protesto contra o tráfico, que impõe toque de recolher e MATA quem anda na calçada? por que a turma dos direitos humanos não faz um “abraço” no complexo do alemão contra os tiros nas comunidades vizinhas? e quando um vagabundo morre e o comércio fecha as portas?

    Engraçado, no filme ninguém comentou da execução sumária que os traficantes fazem nos dois jovens de classe média, a menina morre com um tiro na cabeça, o outro incendiado vivo. Isso pode, coitados do traficantes…
    Será que o Brasil vive uma moral tão deturpada e avessa que aceitamos como certo o subproduto que a miséria produz? o tráfico está certo então? cheirar pó direto em festinha é cool? Quando um cidadão comum, como o pai da minha namorada e ela são assaltados em plena manhã de sexta-feira com uma 45 engatilhada na cara e depois a polícia nem quis fazer RO, aí vem o Luciano Huck e tem um puta espaço na Folha… Como me disse policial do BOPE, o problema é que no Brasil todo mundo tem razão: o bandido, o pobre, o rico, o remediado… na boa, vamos tirar a máscara e lavar a cara.

    ps: caro Escriba, será que os Eua vão arriar as calças pro Evo Morales e dar uma usininha de presente pra eles também? eh eh.

  6. Avatar de escriba escriba disse:

    André, a violência das drogas está mais na lei anacrônica do que nas substâncias que o pessoal ingere. Morre mais gente na guerra contra as drogas do que de overdose.
    E se polícia pode agir como bandido, então acho melhor dar uma arma na mão de cada um e cada um por si. Bandido é bandido, polícia é… bandido tb!

  7. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Ok, Jorge, concordo que a ação do Bope é uma distorção da função inicial, que é basicamente a da SWAT e ESU (NY) resgate de reféns e confronto com bandidos pesadamente armados. Mas, nesse meio tempo, o que fazer? deixar o tráfico agir livremente? em NY isso acontece, mas o que acontece no Rio não existe em NENHUM lugar do mundo, aqui o bizarro virou norma, o bandido age de acordo com a norma vigente.
    Enquanto isso, ouço AR-15 no Tabajaras…
    Você tem a solução? queria saber.

  8. Avatar de escriba escriba disse:

    pois eu retribuo a pergunta: as ações da polícia, não só do Bope, resolveu alguma coisa? Não seriam elas co-responsáveis pelo armamento cada vez mais pesado nas mãos das quadrilhas, que se preparam para o confronto? E as mortes? Quantos ‘envolvidos com o tráfico’ morreram só este ano? Sem contar as baixas colaterais… Diminuiu o número de traficantes? A venda de drogas baixou?

    Não tenho a fórmula mágica, mas a legalização geral e irrestrita das drogas seria um grande primeiro passo. Não a toa é defendida por pessoas tão diferentes – do falecido Evandro Lins e Silva a Milton Friedman, passando por chefes de polícia da Australia, Holanda, Inglaterra, Escócia, EUA, etc…

  9. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Acho que vc, mais uma vez, cre que sou favorável ao Bope, ou anti-Chavez e pro Bush. Nem uma coisa nem outra.
    O tráfico é pesadamente armado não para guerrear contra o Bope ou PM, mas sim contra rivais de outras facções. A Pm tem a sua parcela sim na revenda de armas, como é bem mostrado no CDD e agora no TDE. Interessante notar a boa materia hoje no Fantástico sobre o traficante que literalmente gastou U$ MILHÕES bancando o tráfico aqui no Brasil, em especial com Denarc em SP.

    Se existe “guerra” contra as drogas, essa tá perdida. O outro lado complica. Uma grande amiga minha começou a cheirar e viciou. Em 3 meses já está meio que vendendo a casa e um amigo disse que ela fez 2 programas pra financiar o pó. Pode ser caso isolado, pode não ser… enfim, cada um tem a sua vida.

  10. Avatar de escriba escriba disse:

    nao disse que vc é favoravel ao Bope ou ao que quer que seja… apenas retribui a pergunta.

    Nessa historia toda, a area cinza é muito maior do que a preta e a branca, meu caro…
    e sua amiga viciou em cocaína? Então ela entrou para ínfimo time dos que viciam em cocaína (menos de 10%, sabia?) Eu conheço uma penca de gente que cheira há anos e nunca teve problema algum. Ela não está assim porque cheira, mas porque é fraca. Sempre precisou de apoio psicologico e nunca notou.

    A droga não produz monstros, só os revela e potencializa.
    abração!

  11. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Ih rapaz, essa estória do pó… e outra coisa, já foi comprovado que hoje não é mais classe média-alta que sustenta o tráfico, mas todas as camadas.

    O tráfico come solto em favela hoje, aliás, aquela reportagem em q o Tim Lopes foi morto apontava um desses problemas.

  12. Avatar de manoel de brito manoel de brito disse:

    Impressão minha ou foi um BOPE que causou a morte da moça no episódio do ônibus? Se foi, nem no livro muito menos no filme a história foi citada.

  13. Avatar de Léo Bueno Léo Bueno disse:

    Por sinal, Manoel, que “Ônibus 174″ é do mesmo José Padilha de “Tropa de Elite”.

    Ainda não vi o filme, não tenho como fazer-lhe a crítica. Mas vejo todos os dias o noticiário sobre a ação da polícia, não só no RJ mas também em SP, convivo com o pessoal da quebrada e também já tomei tapa na cara de polícia sem ter feito nada.
    O modus operandi da polícia brasileira – aqui analisada como instituição, sendo que há muitos bons policiais no meio – tem tristes heranças do Brasil truculento, do Estado Novo e da ditadura militar.

    Na Argentina, até padre já foi condenado à prisão perpétua por ter participado de tortura. Aqui, sob a desculpa da anistia (uma lei para todos os outros efeitos necessária), até um crime contra a humanidade, sujeito a julgamento internacional, fica não só impune, mas aceito e subrepetício. Não pode, não tem como dar certo.

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