Verdade editada

Instigado pelo sempre antenado blog Migrante Digital, da minha doce amiga Guta, fui checar essa barafunda toda em torno da palestra que o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad deu esta semana na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Está aí embaixo, no final deste post. Apesar da ofensiva e deselegante pantomima promovida pelo presidente da Universidade antes do início da conversa do presidente iraniano com os alunos que lotaram o auditório, é louvável que a instituição tenha aberto suas portas para um debate desse tipo. Ahmadinejad é uma das figuras mais emblemáticas da atual geopolítica mundial e não conta com a simpatia do governo americano – chegou a ser proibido de visitar o Ground Zero, local em Nova York onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center. Muitos protestaram contra a realização da palestra, mas a universidade bancou a idéia e foi em frente.

Ao contrário do que a imprensa pinta, Ahmadinejad não é um líder brutal ou ditador cruel, nem o Irã a sucursal do inferno, apesar dos muitos problemas políticos, religiosos e econômicos que enfrenta – como também a Índia, o Paquistão, a Tailândia, o Mianmá. Os EUA acusam o Irã de patrocinar terroristas. Com base em quê? Na mesma argumentação que ‘provou’ que o Iraque tinha armas de destruição em massa? Sei…

E seus questionamentos sobre Israel, holocausto e energia nuclear são sim passíveis de questionamentos e debates, mas não absurdamente inviáveis. Israel é sim um Estado terrorista, a matança não atingiu apenas judeus na Segunda Guerra Mundial – russos e ciganos que o digam – e o Irã tem o direito legítimo de investir em energia nuclear, já que praticamente todos os seus críticos (EUA a frente) assim o fazem. Nesse ponto, é curiosa a posição dos que se opôem a um Irã nuclear. Dizem eles que se o país persa desenvolver tecnologia de enriquecimento de urânio e construir usinas nucleares, poderá ter a bomba. Bom, se a regra vale para o Irã, vale para qualquer outro país, certo? Então, porque França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Brasil podem seguir esse caminho e o Irã não? Os iranianos já atacaram algum outro país deliberadamente, sem ser atacado como foi na década de 1980 pelo Iraque? Comparações com a Alemanha de Hitler são estúpidas; os alemães já tinham um histórico belicista àquela época, derrotados que foram na Primeira Grande Guerra. Penso que nenhum país deva recorrer à opção nuclear, mas exigir isso apenas de alguns países é no mínimo hipócrita.

Voltando à fala de Ahmadinejad em Nova York, ele deu um show de tolerância e fair play, para desespero de seus críticos. Depois de ser atacado sem mais nem menos pelo presidente de Columbia logo na abertura, mandou na lata:

… no Irã, quando uma pessoa é convidada a falar, os estudantes são suficientemente respeitados para que se deixe que eles próprios tirem suas conclusões, não é necessário antes da palestra atacar o convidado para se precaver dos ataques da universidade e da faculdade…

Foi aplaudido sonoramente. Como em várias outras ocasiões, como quando defendeu um Estado palestino e também quando criticou os EUA por semear a discórdia e patrocinar – ele sim – o terrorismo em escala global há décadas. Recebeu vaias também e risos da platéia. Quando, por exemplo, disse que no Irã não havia homossexuais como nos EUA. Veja bem, ele não disse que no Irã não existem gays, mas sim que não há como nos EUA. É bem diferente. Evidentemente há homossexuais lá. Mas a cultura persa é outra, bem como a dos muçulmanos, e é preciso respeitar isso. Pergunte a um monge tibetano ou a um aborígene ou mesmo a um índio brasileiro se há gays na comunidade deles. Eles provavelmente dirão o mesmo que Ahmadinejad: “não como vocês.”

A história está repleta de exemplos de como é fácil editar a verdade, desvirtuando falas, deturpando fatos e ocultando inconvenientes. Dê uma googlada por aí e comprove.

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6 Responses to Verdade editada

  1. Avatar de Léo Bueno Léo Bueno disse:

    Legal o texto.
    Só discordo de uma coisa: acho que a fala sobre o Holocausto foi um absurdo. Pode ser que o Estado de Israel invoque a posição de seu povo como vítima do holocausto para justificar sua vocação militarista. É um ato canalha, mas o Estado de Israel tem se comportado repetidas vezes como um estado canalha (é sempre bom lembrar que o Estado de Israel e o povo judeu são coisas completamente diferentes).
    Os russos morreram na Segunda Guerra em larga escala, em parte porque Stalin mandou-os para o abate também; mas principalmente porque estavam, afinal, no campo de batalha. Os judeus, no entanto, foram vítimas da indústria de genocídio dos campos de concentração, planejada e executada pelos nazistas; não tiveram condições de batalhar nem de se defender. Os ciganos, que no entanto não têm pátria, foram a outra raça devastada. Para as vítimas minoritárias – poloneses, tchecos, eslavos – não houve um planejamento de extermínio.

    Querer que isso seja esquecido, ignorado ou revisto pelo mundo não é uma postura decente por parte de Ahmadinejad.
    No mais, você tinha razão: a resposta ao reitor foi brilhante, e o discurso também.

  2. Avatar de escriba escriba disse:

    Não quero que esse assunto tão delicado seja ignorado, esquecido ou revisto, Léo, mas debatido à exaustão, mesmo que isso implique em teorias como a de que o holocausto não existiu. Por que o medo de discutir isso? Se o crime de guerra é evidente, então é fácil derrubar conspirações contrárias, não? Agora, ameaçar com prisão, como ocorre na Europa, quem questionar a veracidade dessa informação é assustadoramente irracional…

  3. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Holocauto, ok, a gente sabe que há uma capitalizção FORTE nessa idéia, mas defender um sujeito como o pres. do Irã é a mesma coisa que defender Bush ou a invasão do Iraque. Menos, camarada, menos…
    Pra não deixar barato: já conseguiu a sua vaga na tv-komintern, ops, tv pública? a pelegada já está se arrumando!

  4. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Ah sim. Sou a favor do desenvolvimento nuclear do Irã.

  5. Avatar de escriba escriba disse:

    não defendo o cara, apenas tentando não dar uma de vaca de presépio e repetir as mesmas besteiras que muitos por aí publicam sem constrangimento…
    E sobre a TV pública, não, ninguém me procurou não.. Mas se rolasse, até que seria interessante. Mas tô na boa aqui no Greenpeace agora, vai ter que aturar este eco-chato aqui!!

  6. Avatar de Léo Bueno Léo Bueno disse:

    Mas eu acho que o debate é mais realista se a gente deixar combinado: “OK, o holocausto ocorreu, foi aquela merda que a gente viu, d’sculpaí, tomaí um estado e beleza”. E aí a gente discute por que os outros povos sem estado, e que também são historicamente perseguidos, também merecem uma colher de chá.

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