Ali Kamel, todo-poderoso da Rede Globo, não acredita em racismo no Brasil. Chegou a escrever um livro sobre o assunto, que apesar da máquina de propaganda da sua empresa, teve repercussão muito próxima de zero. Normal. Não foi o primeiro nem o último livro a testar uma hipótese – por mais absurda que ela pareça. Há páginas e mais páginas nas livrarias afirmando que Elvis não morreu, que a Terra está se expandindo (um camarada meu acredita piamente nessa história), que homens dourados vivem no centro do planeta, enfim, tem de tudo. Parece que o big boss global agora está com uma nova tese pronta, e é bem capaz que vire livro, por que não? Num artigo publicado em seu house-organ particular (o jornal O Globo), Kamel garante que a imprensa é o único veículo de comunicação realmente livre e independente que existe, movido pelo anseio de bem informar o seu grande público. Manipulação? Desinformação? Interesses? Não, não, a imprensa é uma vestal pura, que apenas segue sua missão sagrada de produzir informação de qualidade. E assim o fez na cobertura do acidente com o avião da TAM.
Um trecho:
Na cobertura da tragédia da TAM, a grande imprensa se portou como devia. Não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim. A nação viveu um descalabro aéreo nos últimos dez meses? Então é necessário testar qual o impacto dessa desordem no acidente (e, hoje, ouve-se o ministro da Defesa dizer que a prioridade não é mais o conforto ou a ausência de filas, mas a segurança, uma admissão cabal de que, antes não era assim). A pista de Congonhas estava escorregadia (a ponto de, no dia anterior ao desastre, uma aeronave deslizar até um canteiro e outra quase se espatifar no fim da pista)? Então é preciso verificar se a pista foi fundamental no desastre. Chegam informações de que a manutenção da TAM é falha? Então é preciso saber como estava o avião acidentado (e descobrir que ele voava com o reverso pinado). A análise da caixa-preta ficou pronta? Então é preciso tentar revelar o seu conteúdo e mostrar que uma falha do piloto pode ter sido a causa do acidente. É a grande imprensa que noticia tudo isso, passo a passo, tendo apenas em mente informar o grande público, sem pensar no impacto negativo ou positivo que isso terá para o governo ou para a companhia aérea.
(clique aqui para ler a íntegra do artigo)
Cabe lembrar que o avião que derrapou dias antes do acidente da TAM, um bimotor da Pantanal, só derrapou porque um pneu furou. Não se sabia disso antes, mas mesmo agora quando a informação é pública e notória, continuam lembrando do caso, como Kamel faz, sem citar o que realmente aconteceu. E é assim com todo o resto. A pista escorregadia, a pequena extensão dela, a reclamação de três ou quatro pilotos sobre a ruindade da pista, enfim, tudo foi levantado, mas sem tocar nos pontos que desmentiam essas versões – pista é sempre escorregadia quando chove, em qq lugar do mundo; a pista é pequena como tantas outras; quatro pilotos reclamaram num dia em que pousaram centenas de outros aviões diferentes, e ninguém disse nada.
Pois é. Kamel inventou uma nova teoria, como bem observa Luiz Carlos Azenha: Testando Hipóteses. Funciona assim:
A TV Globo admite oficialmente que ela foi aplicada na cobertura do acidente da TAM.
Eu não sei se entendi direito a idéia.
Mas, para efeito de testar meus conhecimentos da teoria, resolvi aplicá-la ao caso do novo buraco do Metrô que se abriu em São Paulo, na rua Pinheiros.
Sete meses após a morte de sete pessoas engolidas por uma cratera, a terra cedeu de novo, nas obras da mesma linha, causando rebaixamento de um metro e meio na rua.
Primeira hipótese: um gigantesco rato atravessou o túnel que está sendo escavado e provocou o deslizamento.
Como vocês sabem, São Paulo ainda não é Nova York mas tem roedores gigantes.
É plausível, pois, que um deles tenha causado pânico entre os operários responsáveis pela escavação, que deram no pé em desabalada carreira e deixaram o tatuzão que cava o túnel desgovernado.
Não colou?
Segunda hipótese: excesso de trânsito na rua que fica sobre o túnel.
Devido à greve irresponsável dos funcionários do Metrô, os paulistanos foram forçados a sair de casa de automóvel, causando um aumento inesperado no trânsito da rua Pinheiros e, com isso, provocando fissuras que deram origem ao afundamento.
Implausível?
Terceira hipótese: o terreno na região é pantanoso, já houve uma série de acidentes naquela obra, várias casas foram abaladas e reformadas na surdina – durante o período eleitoral; os moradores reclamaram de explosões fora de hora para cavar o túnel, a terra tremia durante essas explosões, os operários sabiam com antecedência que o túnel poderia desabar, eles sairam correndo e se salvaram, mas ninguém foi avisado do lado de fora e um microônibus mergulhou na cratera; o novo afundamento é apenas mais um sinal de que talvez tivesse sido melhor fazer aquele trecho do metrô em elevação, como chegou a ser sugerido; e se um dia, lá na frente, o túnel sob o rio Pinheiros ceder, inundando a linha de metrô e matando por afogamento centenas de passageiros?
Essa é uma hipótese claramente terrorista, mas calma: é apenas uma hipótese.
Enquanto os engenheiros não apresentarem um laudo com os motivos do afundamento e os riscos que ele representa, não posso testar as minhas hipóteses cautelosamente?
(Aqui, a íntegra da nova teoria criada por Ali Kamel)
Deu para entender? Cientistas, tremei! Nada de investigar à exaustão as suposições . Surgiu uma hipótese? Publique-se como fato! Ninguém vai perceber se o jornal impresso ou televisivo vier com uma história completamente diferente a cada 24 horas. E as chances de acertar, no final das contas, aumenta muito, não? Quer dizer, desde que você tenha tempo o suficiente para testar TODAS as hipóteses. Mas tudo bem. Se ainda assim o fato for diferente das hipóteses publicadas, é só escrever um longo artigo e dizer que a imprensa cumpriu o seu papel. Afinal, se tudo é hipotético, porque não o cinismo?
Francis Fukuyama decretou em 1989 o fim da História; Ali Kamel determina, em 2007, o fim do Jornalismo.
Olha, sobre a coluna da semana passada do Luciano Martins Costa, um autoproclamado jornalista escreveu: “Especular, quando não se tem dados concretos e definitivos, faz parte do processo jornalístico, isso me parece tão óbvio que me admira vc ignorar.” É uma nova era no suposto jornalismo brasileiro, calcada no conceito de que “suposição é notícia”. O mais poderoso jornalista do mais poderoso veículo brasileiro é um entusiasta deste conceito. E FODAM-SE os que forem prejudicados por ilações improváveis.
Putz, que beleza heim? Essa era não é tão nova assim nao, Léo… pelo menos no jornalismo esportivo é posto em prática a todo vapor há pelo menos 20 anos. E eu diria que nos cadernos de cultura também.
Mas é indefensável, de qq forma. Caso contrário, vale tudo!
E uma coisa é especular dentro da redação, nas reuniões de pauta, que servem para isso mesmo. Outra coisa beeem diferente é publicar com ares de ‘fato’. Ou será que perdi o bonde da história do jornalismo??
perdeu nada, jorge…
especulação pode servir para encher a barriga [e os cofres] dos barões da imprensa, mas não podem ser publicadas como fato.
pelo menos me parece esse o princípio do jornalismo, de não julgar ninguém por antecedência. mas o que esse cara da rede globo faz é crime.
aquele [abraço]
fabrício
O Caio Túlio Costa, no livro em que fala sobre seu trabalho como ombudsman da Folha, diz que o Paulo Francis usava a técnica de sempre fazer uma previsão, sobre qualquer assunto, em qualquer situação. Claro que a maioria dava errado, mas depois ele capitalizava em cima das que davam certo.
hehehehehe, pois é…
Dê só uma olhada no escreve o Azenha em seu Blog. Sobre o que vem acontecendo em nosso país: http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/442001-442500/442062/442062_1.html . Só pra lembrar ele (O Azenha) foi um dos dois jornalistas que saíram da RG durante o golpe do primeiro turno das eleições. Vale a pena.
Essa obra do metrô em Pinheiros é uma piada de mau gosto até nos detalhes. Na marginal local, sentido Castelo Branco, quase em frente ao shopping Eldorado, há uma placa laranja, enorme, informando aos passantes tratar-se de área sujeita a ruídos de “detonações” por causa das escavações subterrâneas. Curioso notar que, quando instalaram o cartaz, a área estava sujeita a ruídos de “explosões”! Como diria o José Simão, tucanaram (literalmente) a dinamite! Durma-se com um barulho desses.
O Ali Kamel falando de ética é a maior piada de mau gosto de todos os tempos. O cara usava o Globo como assessoria de imprensa particular das namoradas – e dos parentes delas também.
mas… que rapidez a devolução dos cubanos, hein? que eficácia!
Fica a pergunta: por que Lula não extraditou tão rapidamente o traficante colombiano?
http://www.polibiobraga.com.br/luisclaudio.htm
ah sim, uma piada ao cair da noite:
na escola uma professora pergunta: Joãozinho, quem disse essa frase: Só sei que nada sei.
Joãozinho arregala os olhos e responde: ‘Fessôra, o Lula é grego?????
E saber que esse cara está com a bunda na cadeira que um dia foi do Armando Nogueira… (até rimou).
Mudando de ganso para pato, estou em Rondônia, meu caro escriba. Hoje à tarde parto para Guajará-Mirim (ou para Ji-Paraná? Ou Ariquemes?). Se for para a fronteira, logo mais à noite vou desgustar uma Paceña em sua homenagem.
Saúde!
Que beleza, heim? aproveite!! abração!
Na questão do Sr. Kamel, é preciso observar: o jornalismo que se faz no Rio é a cara da cidade. Ali, não há lei, não há regras. Os cidadãos seguem o que bem entendem e o esporte municipal é desdenhar das regras sociais, numa eterna discussão do que deveria ser seguido à risca. Transformar suposições em fatos nada mais é do que exercitar o jeito carioca de conversar. Desta forma, a realidade fica ali, borbulhando, enquanto a cidade segue rumo ao abismo sem que ninguém faça nada. É triste. E, pior: é verdade.
O Escriba » Teoria das hipóteses de vento em popa
[…] de deportar duas inocentes almas para as catacumbas de Fidel!” Seguindo fielmente a teoria das hipóteses defendida pelo poderoso-chefão da Globo, apostaram num enredo orwelliano, em que a PF brasileira […]
O Escriba » Testando hipóteses também lá fora
[…] 02 Oct 2007 03:54 pm | Classificado como: Bolívia, canalhice, internacional, imprensa, brasil A Teoria das Hipóteses (ou Cinismo Hipotético), de Ali Kamel, enfim ganha o mundo. Segundo notícia da Associated Press sobre a instabilidade […]