Pan de barro

Tem gente espantada com a pouca atenção dada ao Pan por parte da mídia esportiva americana. A grande potência esportiva mundial está cagando e andando para o evento do Rio e não é para menos. Os EUA enviaram ao Brasil basicamente seus atletas juvenis, com raras exceções. Canadá fez o mesmo. Nem Cuba mandou seus principais nomes, com índice de renovação próxima de 80% em relação ao grupo que esteve em Santo Domingo, em 2003. Os Jogos Pan-Americanos são uma competição classe B, espremidos entre os Jogos Olímpicos e campeonatos mundiais de diversas modalidades – esses dois últimos têm a preferência da maioria dos atletas, tanto por ter um nível mais alto como também por pagar melhor. O Pan é usado mais como campo de testes aos atletas menos experientes. Sad but true.

Ok, vamos fazer a maior festa para cada medalha conquistada no Rio, locutores e comentaristas esportivos estão dando vazão a todo seu fetichismo, parecem até o Mutley, cachorrinho do Dick Vigarista que só pensava em uma coisa: medalha, medalha, medalha! É o que o povo quer, mas que isso não mascare a realidade esportiva brasileira.

Em 2003, fiz uma matéria para a Reuters mostrando que o resultado em Santo Domingo significava pouco ou nada em termos olímpicos. O recorde de medalhas conquistado na República Dominicana – 122, das quais 28 de ouro – basicamente não teria influência nenhuma nos Jogos Olímpicos do ano seguinte, em Atenas (2004). Consultei os principais resultados oficiais de cada categoria e constatei que as conquistas em Santo Domingo se deram principalmente porque enfrentamos adversários muito fracos. Não deu outra: na Grécia, foram 10 medalhas (cinco de ouro, duas de prata e três de bronze). Ok, conquistamos o maior número de medalhas de ouro numa edição e pela primeira vez ficamos entre os 20 melhores países (o Brasil foi 16o. em Atenas), mas a euforia que tomou conta do país após Santo Domingo parecia que íamos pras cabeças, disputar com EUA, Rússia e Cuba. Menos, bem menos.

Pior aconteceu anos antes, após o Pan de Winnipeg (no Canadá em 1999). Lá também batemos o recorde de medalhas conquistadas (foram 101, das quais 25 de ouro) mas na Olimpíada de Sydney foi aquela ducha de água fria – nenhum ouro.

Ainda é cedo pra saber se o Brasil vai bater o recorde de Santo Domingo, mas a história diz que sim. Tradicionalmente, o país-sede de um evento esportivo consegue um número bem maior de medalhas do que a média obtida nos anos anteriores, em competições realizadas fora. Na edição seguinte, o número de medalhas volta ao patamar anterior. Cheguei a essa conclusão estatística depois de consultar as tabelas de todas as edições de Pan e Jogos Olímpicos, e não falha.

A República Dominicana nunca conquistou tantas medalhas quanto em Santo Domingo em 2003, a Austrália também bateu seu recorde nos Jogos Olímpicos de Sydney, e a China certamente vai nadar em ouro em Pequim em 2008 (já quase surpreendeu os EUA em Atenas). Quando o Brasil foi sede dos Jogos Pan-Americanos de 1963 (em São Paulo), também se beneficiou disso. Naquela edição, o Brasil conquistou cerca de 150% a mais de medalhas do que na edição anterior, em 1959, em Chicago, nos Estados Unidos. Na cidade americana, os atletas brasileiro obtiveram 22 medalhas (oito de ouro, oito de prata e seis de bronze). Em São Paulo, quatro anos depois, esse número pulou para 54 (15 de ouro, 20 de prata e 19 de bronze). Quatro anos depois do Pan de São Paulo, o total caiu drasticamente. Em Winnipeg, no Canadá (em 1967), foram 26 medalhas (11 de ouro, dez de prata e cinco de bronze). Essa queda no número de medalhas depois de ser a sede também é regra, mas em geral o país ainda mantém uma certa gordura, conquistando mais medalhas do que a média anterior.

Como entender esse fenômeno? São vários os motivos: as confederações olímpicas nacionais investem mais em seus atletas pra não fazer feio em casa, os atletas ficam mais empolgados por atuarem diante da torcida, o apoio das arquibancadas, a pressão que os árbitros sofrem, enfim, de tudo um pouco.

O Brasil pode bater mais uma vez, agora no Rio, o recorde de medalhas conquistadas em Pans, ficando em terceiro lugar no quadro geral de medalhas (atrás apenas dos EUA e de Cuba, na frente do Canadá), mas isso não deveria inflar muito o ego esportivo nacional. Não ajuda em nada. Devagar com o andor olímpico, porque o santo do Pan é de barro.

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5 Responses to Pan de barro

  1. Sobre a seleção B americana, também achava isso, que só mandavam os Bs.
    Mas vi uma entrevista da Maranhão, se não me engano, e ela comentou sobre isso.
    Lá, os caras tem suporte pra tudo, principalmente na Universidade.
    E o time B é chamado assim porquê perderam pro time A.

    Em Santo Domingo, o último Pan, o time B dos EUA foram, e superaram o chado time A com o tempo e foram eles pra Sidney.
    Time A e B, num lugar “descente”, vale mais para um superar o outro e pro outro fugir do um, não é quem é melhor e quem é pior…
    Ah, um dia…

  2. Avatar de escriba escriba disse:

    Caio, pode até ser que aconteça isso, mas no caso do Pan, não. O que vem para esse tipo de competição (não só no Rio, mas em TODOS os Pans) é o time juvenil, para ganhar experiência. Canadá faz o mesmo, Cuba também.

  3. Bom mesmo foi a seleção brasileira de futebol, que ganhou a copa américa com o time B. na próxima copa, temos que ir com os reservas!

  4. Avatar de Léo Bueno Léo Bueno disse:

    Sinal do status do Pan é o causo do basquete masculino em Santo Domingo. O Brasil mandou força máxima e foi muito bem – se não me engano, ganhou ouro ou quase. Só que a maior parte das grandes seleções estava com time B. E por quê? Porque dias depois do Pan começaria o pré-olímpico para Atenas e estava todo mundo se preparando.

    E depois, então, o Brasil chegou ao pré com medalha no peito. Só que, despreparado para uma competição que era toda outra, perdeu a vaga – inclusive para adversários de quem havia vencido o time B no Pan.
    O basquete brasileiro, que já foi campeão mundial, hoje é desse tamanhinho.

  5. Avatar de escriba escriba disse:

    Pois é, Léo. Mas os motleys do imprensalão esportivo não estão nem aí , o negócio é medalha, medalha, medalha, medalha, medalha…

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