Sou humanista

Por isso não consigo compartilhar dessa sede de vingança contra os assaltantes que arrastaram um garoto de 6 anos pelas ruas do Rio. Na boa. Já perdi um irmão assassinado (por um PM no Rio) e nem por isso apoiei meu pai quando ele ccgitou em contratar um assassino profissional para matar o cara.

Penso que o sistema prisional deve ter como meta a recuperação do indivíduo para o convívio social. Se a pena de morte não faz isso (por motivos óbvios), muito menos a prisão perpétua, com o agravante que sermos obrigados a sustentar o cara lá enquanto estiver vivo.

Nesses casos de crimes bárbaros, de serial killers (tem um livro muito bom sobre eles, Killing for Sport) e facínoras irrecuperáveis, talvez seja uma solução pesquisar a viabilidade de se manipular quimicamente seus cérebros enquanto estão presos. É arriscado, eticamente duvidoso e tal, mas sinceramente não vejo outro meio. Se a ciência consegue alegrar um maníaco-depressivo e excitar um brocha, porque não domar um troglodita assassino?

Caso contrário, será sempre essa briga de gato e rato: um maluco comete um crime bárbaro, choca a sociedade, que pedirá vingança, encontrando-a de vez em quando, aí pedirão leis mais duras, até que outro crime horrendo aconteça… enfim…

Há quem acredite também que é impossível viver numa sociedade 100% livre de crimes (do grau que for). Neste caso, é torcer para não estar no lugar errado na hora errada e… manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

(texto originalmente publicado numa discussão no Orkut, com ligeiras modificações)

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18 Responses to Sou humanista

  1. Avatar de fabricio fabricio disse:

    de cara, sem pensar, eu já concordo com você, jorge. é complicada realmente uma intervenção de caráter nos presos. mas se levarmos em conta que o cidadão comum, de bem, já é bombardeado por sacanagens subliminares, poções de ereção, manipulações da imprensa, acho que seria possível a idéia.

    aquele [abraço]
    fabrício

  2. Teve um maluco que pensou tempos atrás em borrifar cidades inteiras com LSD, com aqueles aviões usados em plantações. Não seria má idéia…

  3. Avatar de contra contra disse:

    Concordo com seu não-alinhamento com a opinião comum [e fácil] dos que querem vingança, mas quando falaste em “facínoras irrecuperáveis, talvez seja uma solução pesquisar a viabilidade de se manipular quimicamente seus cérebros enquanto estão presos” me veio à mente a parte final do Laranja Mecânica e o argumento de Huxley no “Admirável Mundo Novo”.
    Concordo que esse crime em questão coloca à prova os limites do argumento tão usado de criminoso social [condicionado pelas circunstâncias sociais] por ser bárbaro e, ao mesmo tempo, banal. Mas daí solicitar a invasão do corpo pela aparelhagem estatal [mesmo que em crimonosos barbáros] é um passo que eu não ouso dar, já que abriria precedentes para outras intervenções inimagináveis… Pense, por exemplo, em um cruzamento entre psiquiatria, criminalística e genética…

    abraços.

  4. Também pensei em Laranja Mecânica e Admirável Mundo Novo. Não sei se é a melhor solução, nem mesmo se há solução…
    abração!

  5. Avatar de Carlos Carlos disse:

    Muitas perguntas e poucas respostas. Mas deve ficar claro uma coisa: para cada problema complexo tem uma solução simples, óbvia e errada.
    Continuo contra a pena de morte. Perpétua? Talvez, em casos muito extremos e de exceção. Maioridade penal? Talvez devesse mudar, para certos casos muito bem especificados. Quanto à manipulação química é muito complicado do ponto de vista ético.

  6. Avatar de fabricio fabricio disse:

    salve jorge,
    inevitável não pensar nessas duas obras citadas [laranja mecânica e admirável mundo novo]. mas acredito que seja sim uma discussão saudável para as próximas gerações.
    num país onde a reforma política e tributária é tratada da forma que vemos, imagine um assunto como esse: ‘intervenção do estado na mente criminosa’… rs

    mas a idéia levantada pelo jorge é pertinente sim. quem sabe encher os presídios com cartazes subliminares, como a própria publicidade faz todos os dias nas grandes cidades, não possa ser um passo?
    talvez os criminsos fiquem mais mansos..
    aquele [abraço]
    fabrício

  7. Avatar de Bruno RIbeiro Bruno RIbeiro disse:

    Jorge,
    você me desculpe, mas no caso desse crime horrendo do menino, isso aí não tem recuperação não.
    Sou humanista também, sou contra a pena de morte em qualquer caso. Mas há que se tratar com o maior rigor um criminoso que mata uma criança, ainda mais da forma como aconteceu.

    Não é nem questão de tentar manipular a cabeça de um fascínora como esse. É questão de deixá-lo apodrecer na prisão mesmo. A recuperação de criminosos para a sociedade é a coisa mais importante e urgente a ser feita. É possível recuperar a maioria.

    Num caso como esse, a coisa muda de figura. Alguém que mata uma criança com requintes de crueldade não merece sequer o direito da recuperação.
    Mas é somente a minha opinião.

  8. Bruno, fiquei sabendo hoje que os jovens que estavam no carro NÃO SABIAM que havia uma criança pendurada. Com certeza os avisos dados por populares na rua não foram ouvidos – ou vc imagina que é possível escutar alguma coisa dentro de um carro em fuga?

    Tenho a impressão que os assaltantes não tiveram a intenção de arrastar sadicamente o garoto pelas ruas do subúrbio carioca.
    Mas a sanha vingativa (e irracional) da sociedade sempre aflora em momentos como esse? Se há algo de errado, é com a própria sociedade, que dita civilizada, não consegue controlar seus instintos selvagens em momento de tensão. Isso sim é um perigo…

    Essa é a minha opinião…

  9. Concordo totalmente c/ o comentário foulcaultiano do Contra. A propósito, eu já havia pensado uma coisa: que no fim (digo, considerando o caso após todo o estardalhaço da mídia) o que sobra no imaginário popular é a imagem caricatural/grotesca de um suplício invertido. Um suplício cujo efeito final é o sentimento de caos e entropia. E agora, nos dizem, só nos resta botar os caras na prisão. Mas então, peraê!_pensa o distinto público_ que ironia bizarra é essa?!…Diante disso, não há como não temer a “resposta” que virá. Não há como não temer os tais “passos” a que o Contra se refere. O pior é que, na falta de respostas alternativas/razoáveis, o que vier vai ser bem-vindo. Quando? Como? Sei, lá. Só me lembro agora de uma frase do Foulcalt, mais-ou-menos-assim: se o mundo está a ponto de se tornar uma prisão, é pra satisfazer as exigências “humanas”. Sinistro. Mas isso também não serve nem indica nenhuma “resposta-alternativa”. E vamo que vamo.

  10. Avatar de Bruno Ribeiro Bruno Ribeiro disse:

    Jorge,
    eu acredito que a maior parte das pessoas se deixa levar demais pelas notícias que saem nos jornais e na televisão. E a abordagem é sempre superficial, nós sabemos muito bem.
    Não compactuo com a sede de vingança geral, pode crer. Apenas acho que para determinados crimes – como este que aconteceu com o menino – não podem ser tratados como qualquer outro crime.
    Mas nós dois concordamos. Sempre!

  11. com certeza crimes bárbaros chocam, mas não sei se é o caso de tomar medidas paliativas como reduzir maioridade penal ou permitir a execução sumária. Suponhamos que isso tudo seja determinado a partir de agora. Os crimes chocantes continuarão acontecendo – aqui, nos EUA, na Europa, África, Ásia, onde for. E aí, vamos endurecer até que ponto? Voltaremos ao código de hamurabi?
    A questão é das mais intrigantes e difíceis, é certo. A meu ver, exige calma e discernimento, não desespero e reações instintivas…

  12. Avatar de Bruno Ribeiro Bruno Ribeiro disse:

    Não, em nenhum momento falei em redução da idade penal ou pena de morte. Sou radicalmente contra, até porque os únicos condenados no Brasil seriam os pretos e os pobres. O que eu acho que precisa ser feito é uma reforma judicial efetiva, para acabar com a quantidade de recursos a que esse tipo de gente pode recorrer. Isso não é feito porque o esquema enche o bolso de muito juiz e muito advogado canalha nesse país. Para mim é simples: cometeu um crime hediondo, ficou provado que se teve a intenção de matar, então é pena máxima, sem atenuantes. O que acontece, Jorge, é que no Brasil não se fica preso. O cidadão mata uma criança de seis anos, vai preso, fica dois meses, consegue um recurso e responde em liberdade. Só ficam presos os criminosos pés de chinelo, que não estampam manchetes de jornal e ao Estado não interessa amparar judicialmente. Foda essa distinção. E tem mais: teria que rever geral. Tem que acabar com isso de cela especial para criminoso com diploma. Se o cara fez faculdade deveria ter a pena dobrada, porque teve muito mais oportunidade na vida. Abç!

  13. é verdade, Bruno, a Justiça dá muito mole também… E gostei da sugestão da pena dobrada para quem tem curso superior.
    abração!

  14. Avatar de Léo Bueno Léo Bueno disse:

    Já eu, nessas horas, penso em sangue. Se encontro, de mãos limpas, um desses sujeitos que arrastaram a criança, faço estrago. Se a vítima tiver sido alguém que eu gosto então, morte é pouco. Aliás, nem quero que o sujeito morra. Prefiro uma vida longa de muito sofrimento. Quero ficar sozinho com ele numa sala – e quero ter um machado na mão, para cortar todos os seus membros. Machado não: uma serra. Não, melhor: uma faca de pão. Sem fio, de preferência. O corte tem de ser lento e doloroso. Os gritos não podem ficar abaixo dos 200 decibéis.

    E aí é que está: eu não sou o Estado e as punições em sociedade têm de seguir a lógica do bem comum. Tem de ser assim, sob pena de a sociedade piorar. Todo crime é um ato lesa-comunidade; a comunidade cometer um crime para saná-lo não é solução razoável. Cada nova ação criminosa é um exemplo para o bandido; não foram poucos os traficantes que aprenderam com a polícia a torturar seus inimigos. O que o Estado fizer, estará ensinando a sociedade a fazer.

    A pena de morte – assim como outras penas violentas – é evocada por seus defensores apenas como uma forma de vingança. Alguns defendem-na para os criminosos irrecuperáveis. Daria trabalho, já que o número de criminosos irrecuperáveis no Brasil e no mundo extrapola as mais pessimistas expectativas.
    Isso sem contar os argumentos mais batidos: 1) olho por olho, acabaremos todos cegos. 2) Que lógica tem em matar para ensinar que é errado matar? 3) A morte desses garotos vai trazer a criança de volta? 4) Será que ela realmente vai trazer algum tipo de paz para os pais da criança?

    Quer dizer: são argumentos batidos, mas continuam valendo.
    É isso. Abraço
    PS. É absolutamente óbvio que os criminosos que arrastaram a criança não sabiam o que estavam fazendo. São pés-de-chinelo e que fizeram uma merda homérica. Um deles, para começar, iria apenas vender as calotas do carro! É o típico mané.

    PPS. O primeiro parágrafo deste imenso post (peço desculpas pela extensão) é interpretação livre de ‘Diálogo sobre a Pena Capital’, de Umberto Eco, lançado no livro ‘Viagem na Irrealidade Cotidiana’.

  15. Parafraseando um cartaz de uma passeata pacifista, Léo:
    Matar para ensinar a não matar, é como fuder em prol da virgindade…

  16. Avatar de Marcos Marcos disse:

    Se o garoto fosse preto, não tinha metade do barulho.
    Se fosse filho de traficante, então…

  17. Como humanista a gente se identifica. Como neo-humanista militante a gente é partidário da não-violência dinâmica, que não´se confunde com pacifismo piegas.

    O aumento da violência não é só física, mas também econômica, psicológica, religiosa, ecológica e poraí.
    Aumentar a repressão e o castigo só aumenta nossa própria falta de liberdade, em troca duma segurança insegura, ilusória.

    Trabalhei em favelas e ocupações urbanas e conheço essa rapaziada condenada a uma vida sem vida. Difícil é culpá-los a eles.
    Discussão mais objetiva e realista sobre o tema é abafada pela maquinária do esquema ou sistema, pois atinge sua própria sobrevivência.
    O tema é complexo demais pra mentes que não estão dispostas a se envolver seriamente.

    e-e_x

  18. O que mais me irrita são essas idéias rasas para assuntos polêmicos. Mas vc acha que os editores da Veja, que representam tão bem essa classe mérdia, estão preocupados com isso?
    abração!

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