Ninho de mafagafos

Ainda estou me recuperando dos dois dias que passei circulando pelo Congresso Nacional, em Brasília, para divulgar a bem-humorada ação que o Greenpeace fez no local, quarta-feira, contra uma medida provisória absurda, uma que poderá nos fazer dar um perigoso salto na escuridão dos transgênicos.

Enfrentar o caos no aeroporto da capital federal – com direito a cancelamento de vôo da Varig e transferência para um outro da TAM, após quase quatro horas de idas e vindas pelos lotados saguões – foi fichinha perto da ralação que tivemos na Câmara terça e quarta para armar a atividade – preparar o cenário, colocar os ativistas lá dentro sem dar na pinta, cercar os parlamentares chaves, chamar a imprensa. A idéia era colocar dois papais noéis e dois duendes frente a frente dos deputados que se preparavam para votar (e aprovar, por supuesto) a tal MP, tudo porque ela trancava a pauta e eles queriam porque queriam dobrar seus humildes salários (acabou que o aumento dos vencimentos não saiu, mas vai sair, ah se vai…)

Foi divertido ver os seguranças da Câmara atônitos com a presença dos bons velhinhos e companhia pelos corredores, distribuindo cartões de Natal e explicando porque o Brasil precisa ficar longe do canto da sereia da Monsanto, Bayer e Syngenta. Eles até sacaram que ia rolar alguma coisa e fecharam o Salão Verde (nosso objetivo inicial) para todos que não fossem funcionários, parlamentares ou jornalistas, mas fomos mais ágeis e, quando se deram conta, estávamos na porta da sala onde rolava uma reunião de líderes de bancadas. Colocamos um crachá com o T de transgênico no pescoço do Inocêncio de Oliveira (que fez biquinho e posou todo prosa para os fotógrafos), demos um outro para o Rodrigo Maia (líder do PFL, também a favor) e distribuímos cartões de Natal aos deputados que estavam do nosso lado, como Miro Teixeira, Fernando Gabeira e Ivan Valente.

Tinha um segurança, daqueles sem pescoço, grande pacas, que bufava irritado com nossa presença – “quer que eu tire eles? É só pedir que ponho todo mundo pra fora na marra!”, dizia ele no rádio, conversando com um superior. Curiosamente, nos deixaram quietos e assim fizemos nosso auê sem maiores problemas. Único momento de tensão, mas nem tanto, foi quando discuti com um cara que depois vim a saber que era um lobista ruralista. Produtor de soja transgênica, quebrei as pernas dele quando perguntei desde quando plantava a variedade, ao que ele me respondeu orgulhoso: “Desde 1997!” “Ah, tá. E o senhor já pagou sua dívida com a Justiça? Afinal, nessa época, a soja transgênica era ilegal no país, só liberaram em 2003 (na base do fato consumado, já que havia milhares de hectares plantados na marra).” Tirei ele do sério.

Nunca tinha entrado no Congresso. Não tinha a menor curiosidade. É um tremendo ninho de mafagafos. Gente pra tudo quanto é lado, de todos os tipos, deputados, secretárias, juízes, lobistas, ativistas (nós!), jornalistas, curiosos, estudantes, seguranças. Parecem formiguinhas zanzando pra lá e pra cá. A impressão que tive é que todos parecem estar conspirando, armando a próxima jogada.

Tivemos sucesso na ação em si, conseguimos bastante mídia e levantamos a bola da MP dos transgênicos, que estava meio que perdida no meio daquela confusão toda do aumento de salário. Mas a maldita foi aprovada no plenário – com direito a discursos cínicos de parlamentares da bancada ruralista, que se colocavam como defensores do desenvolvimento científico. Estão é passando batido pelo Princípio da Precaução e também pelo Protocolo de Cartagena (do qual o Brasil é signatário) ignorando as muitas dúvidas que os transgênicos ainda geram no meio científico e ambiental. Estão colocando questões de mercado à frente da biossegurança.

Dr. Moreau fez escola. Que seus alunos sejam devorados pela própria ganância.

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4 Responses to Ninho de mafagafos

  1. Avatar de Carlos Carlos disse:

    Ativismo não deixa de ser uma espécie de lobby, ainda que não o lobby clássico de gabinete (lobista que molha a mão de deputado não é lobista, é corruptor). Mesmo que a causa seja nobre. Deve ter sido engraçado pacas…

  2. Ativismo é mais nobre, honesto e transparente do que lobismo. É feito por quem realmente acredita na coisa, não é ‘show me the money!’, saca?
    mas enfim… é, foi divertido praca!
    abraçao, véio! E feliz natal!!

  3. Avatar de Carlos Carlos disse:

    Entendo, o que eu quis dizer, de uma forma um pouco provocativa eh que fazer lobby eh fazer pressao por um grupo de interesse, que pode ser uma grande industria ou um sindicato de trabalhadores.Podem ser ruralistas ou sem-terra, sem entrar no merito das causas. Mobilizar a opiniao publica eh uma forma de lobby, protestos pela internet, pressao na midia (como o Greenpeace faz brilhantemente chamando a atencao para causas mais que nobres) etc. Assim como o lobby de gabinete. Que tb eh legitimo, mas que precisa de controle e fiscalizacao para nao virar bundaleleh total. Nos EUA, lobista eh profissao com registro, prestacao de contas, pagamento de impostos, etc (o que nao quer dizer que nao haja problemas). Lah, grupos de ativistas mantem seus lobbies de gabinete como parte do jogo. Aqui nunca houve interesse em aprovar uma lei que regulamentasse essa joca e permitisse um minimo de fiscalizacao. Eh caixa preta total.

  4. Avatar de Carlos Carlos disse:

    E feliz Natal tb pra todos!

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