De Anansi aos contos fantásticos compilados por Italo Calvino

Depois de uma temporada no interior, durante o feriado, acabei enfim de ler Os Filhos de Anansi, do escritor inglês Neil Gaiman, criador de Sandman que está cada vez mais afiado em seu ofício. As desventuras de Fat Charlie, filho do deus Anansi, são uma boa pedida para quem quer uma leitura leve e divertida – bem diferente dos livros anteriores dele, as obras-primas Deuses Americanos e Stardust, densos e rebuscados, ou mesmo Wolf in the Walls e Coraline, histórias infanto-juvenis de provocar calafrios nos mais corajosos adultos. Mas guarda semelhanças a esses quanto à engenhosidade e ao estilo pop na medida certa.

Uma palinha do que se trata:

O sr.Nancy pensou em erguer uma mão através da grama e agarrar o tornozelo de Callyane Higgler. Era algo que ele sempre quis fazer desde que viu o filme Carrie num drive-in, 30 anos antes. Mas, agora que a oportunidade estava à sua frente, resistiu à tentação. Ela sem dúvida iria gritar, teria um ataque do coração e morreria. Aí aquele Jardim do Repouso ficaria ainda mais cheio do que já estava.

E dava muito trabalho, de qualquer maneira. Havia ótimos sonhos que poderia ter naquela mundo sob o chão. “Vinte anos”, pensou. “Talvez uns 25. Quando chegar essa época”, pensou, “talvez até tenha netos. É sempre interessante ver como os netos saíram.”

Podia ouvir Callyane Higgler gemendo e chorando acima dele. Então ela parou de soluçar, o suficiente para anunciar:

– Mesmo assim, não dá pra dizer que ela não teve uma vida longa e próspera. Essa morreu com 103 anos de idade.

– Centro e quatro! – corrigiu uma voz irritada, vinda do solo, perto dele.

O sr. Nancy esticou um braço imaterial e bateu na lateral do caixão novo.

– Fica quieta, mulher! Tem gente aqui querendo dormir.

Com o sexto livro devidamente terminado, posso atacar um velho sonho de consumo: Contos Fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino. Ganhei de aniversário há dois anos e só agora me dei esse prazer. Sim, curto pacas esse tipo de literatura, Edgar Allan Poe sendo um dos meus preferidos. Nesta coletânea que comecei a ler ontem tem de tudo um pouco, Poe, Hoffman e Nerval, passando por Gogol, Dickens, Hans Christian Andersen, Kipling e até Honore de Balzac. O barato dessas compilações é descobrir autores e textos há muito esquecidos. Como o conto de abertura, História do demoníaco Pacheco, do estranho conde polonês Jan Potocki (1761-1815), de quem nada li. Veja o que diz Calvino sobre a obra, no texto introdutório que faz a cada conto.

O relato se inicia logo após o início do romance (Nota minha: Manuscrit trouvé à Saragosse, publicado em francês e que ficou mais de um século desaparecido, sendo redescoberto em 1958. É um livro com contos que se interligam, como nas Mil e Uma Noites. Foi levado às telas do cinema em 1965, numa produção polonesa). Alphonse van Worden, oficial da armada napoleônica, está na Espanha; vê um patíbulo com dois enforcados (os irmãos De Zoto), depois encontra duas belíssimas irmãs árabes que lhe narram a sua história, impregnada de um perturbador erotismo. Alphonse faz amor com as duas irmãs, mas à noite tem estranhas visões e, ao alvorecer, encontra-se abraçado aos cadáveres dos dois enforcados.

Esse tema do amplexo com duas irmãs (às vezes até com a mãe das jovens) se repete no livro várias vezes, no relato de muitas personagens, e aquele que se acreditava um amante afortunado sempre se encontra de manhã sob o patíbulo, entre cadáveres e abutres. Um encantamento ligado à constelação de Gêmeos é a chave do romance.

Nos primórdios do novo gênero literário, Potocki sabe exatamente aonde ir: o fantástico é a exploração da zona obscura em que se misturam as pulsões mais desenfreadas do desejo e os terrores da culpa; é a evocação de fantasmas que mudam de forma como nos sonhos; ambigüidade e perversão.

Tem coisa melhor do que isso pra ler antes de dormir?

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3 Responses to De Anansi aos contos fantásticos compilados por Italo Calvino

  1. Essa compilação de contos é sensacional! Eu prefiro os da segunda parte. O do Poe é uma obra-prima da concisão. Mas o do Stevenson também é genial. Sem falar no Gogol (hilariante), Turguêniev, Dickens e do mestre H G Wells.

  2. estou no segundo conto, até agora, muito bom!

    E o Nariz, de Gogol realmente é demais, já tinha lido numa edicao pocket antiga…
    bem que podiam editar mais desse tipo de literatura nao? ou existe e eu ignoro?

  3. Também gosto muito desse gênero. Acho que já vi pelo menos uma outra compilação muito semelhante_de contos de terror_mas não comprei. Se vc gosta de contos “estranhos” recomendo um livrinho que acabei de ler: O Cavalo Perdido, de Felisberto Hernandez.

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