Quem não tem imprensa, caça com internet

Mais um debate, desta vez no SBT, e fico novamente com um certo gosto de decepção. A fórmula adotada no Brasil é muito engessada e limitada, impedindo que os candidatos possam aprofundar os temas, discutir projetos, apresentar ao público suas pretensões para o país. Dois minutos para pergunta, um minuto para réplica. Isso é piada. Nem o Enéas, com seu jeito frenético de falar, conseguiria em tão pouco tempo dizer algo de útil. Então, o que vemos é mais do mesmo: números jogados a torto e direito, acusações, ataques, defesas, nada muito aproveitável.

Lula se saiu bem novamente, pelo simples fato de que tem o que mostrar. Alckmin abandonou o estilo George Foreman e, pianinho, ficou com aquele papo bocoió de que era diferente do Lula, de que é possível fazer mais, que ele vai promover o crescimento, cortar gastos, dar emprego e renda… afff, que saco! É o típico candidato fadado ao fracasso, porque não tem o que dizer – sua administração em São Paulo foi um caos (o PCC tá aí pra não nos deixar mentir…). Tirando um barraco mais acentuado, os dois próximos debates – nas TVs Record e Globo – serão mais do mesmo.

Penso que para esses debates realmente terem alguma utilidade, seria importante oferecer mais tempo para os candidatos (uns 5 minutos no mínimo), permitir perguntas não só de jornalistas, mas também de pessoas da platéia como aliás foi feito no segundo turno em 2002, e de especialistas de várias áreas (saúde, educação, segurança, economia). Mas esse espaço para as grandes discussões não vai aparecer tão cedo – pelo menos não nas TVs, e muito menos nos demais meios de comunicação. A eles o que interessa é o jornalismo pout-pourri e enviezado, para defender seus inconfessáveis projetos políticos.

Enquanto isso, a grande fronteira da internet continua pouco utilizada pelos políticos, apesar do sucesso que faz com os eleitores. Não me refiro aos grandes portais de mídia, que em geral apenas transferiram para a web a velha fórmula usada em jornais e revistas, com as mesmas idiossincrasias, hierarquias e limitações. Falo da internet de verdade, aquela que nasceu e cresceu pela necessidade de comunicação e troca de informações de nerds, geeks, malucos em geral em todo o planeta. Num momento em que praticamente 100% da grande imprensa é contrária ao seu governo, Lula e o PT precisam se jogar nesse universo. You Tube, Metacafe, Orkut, blogs, podcasts, marketing viral, del.icio.us, eSnips, Rapidshare, sei lá mais o que, as possibilidades são imensas.

Paulo Henrique Amorim escreveu ontem sobre essa necessidade de Lula driblar o cerco imposto pelos (tu)barões de forma bem clara. Amorim lembra que Roosevelt, nos Estados Unidos, e Chávez, na Venezuela, sacaram isso e tomaram medidas – o presidente americano com mais sucesso, por ter apostado numa tecnologia relativamente nova à época, o rádio, para dar o seu recado, enquanto Chávez preferiu o enfrentamento ocupando espaço nas TVs qe lhe fazem oposição (desonesta, quase sempre).

Por aqui, é fato que a inclusão digital ainda engatinha, mas já atinge um significativo número de pessoas, e o brasileiro é um dos que mais usam a internet no mundo. Quando viajei pelo Brasil com o Greenpeace, num tour anti-nuclear realizado no início de 2005, fiquei pasmo com a quantidade de cybercafés e lan houses que existem por aí e como sempre estavam lotados. Até nas cidades mais distantes, como Caetité na Bahia, eu conseguia me conectar para passar matérias e fotos pro site do Greenpeace, e atualizar meu blog.

Segundo um estudo do Technorati, o universo dos blogs dobra de tamanho a cada 5 meses! Hoje já são mais de 15 milhões, reportando, comentando, divulgando, oferecendo informações sonegadas pelas grandes corporações de mídia, cobrindo guerras, ou apenas contando a rotina de uma pessoa qualquer – na Inglaterra, está em gestação um blog coletivo que pretende reunir milhares de depoimentos sobre o dia-a-dia dos britânicos, um arquivo de história social como nunca feito antes.

Até o presidente do Irã, Mahmood Ahmadinejad, lançou o seu blog recentemente, escrito em persa, árabe, inglês e francês. O governo iraniano exerce um controle rígido sobre a internet no país, mas achei curioso o fato deles aparentemente não censurarem os comentários enviados por pessoas de todo o mundo – no canto direito do blog podem ser lidas críticas ao governo por impedir que os iranianos tenham liberdade total no uso da internet e também elogios pela oposição que o Irã faz a Israel e Estados Unidos.

Por mais que a internet ainda não tenha a força da TV e do rádio no Brasil, ela poderá ser um diferencial e tanto para Lula em seu – oxalá! – segundo mandato, como bem observou Paulo Henrique Amorim. Talvez já tenha percebido isso – tanto que gravou um agradecimento aos que o defendem no Orkut, um vídeo que obviamente já ganhou o YouTube. Não sei quem gravou antes, mas Alckmin também deu seu depoimento aos tucanos do Orkut – e o vídeo foi postado antes.

Seria ducaralho Lula ser o primeiro presidente brasileiro a ter um blog ou algo do tipo. Quem não tem imprensa, caça com internet. E se dá bem.

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4 Responses to Quem não tem imprensa, caça com internet

  1. Avatar de Marcos Marcos disse:

    Jorge, na Inglaterra quem sacou isso foram os conservadores. O Cameron, em que eles apostam para ser o novo primeiro-ministro, lançou um site que é um trocadilho infame (webcameron.org), uma espécie de videoblog com espaço para blogs convidados (de outros políticos conservadores, claro) e posts do público.
    Não é só isso. Na convenção do partido, um dos convidados foi o presidente do Google. E o cara disse mais ou menos o mesmo que você: os políticos demoraram, mas aprenderam a falar para a TV. Hoje em dia, temos uma geração de políticos televisivos. Mas ainda não sabem usar a internet. Esse é o futuro.

  2. Avatar de Marcos Marcos disse:

    Ah, e por falar em blogs do mundo árabe:
    Unleash the Buried Soul II
    The fajr prayer wakes her up
    Gently caressing her ears
    She prays to God
    She asks him
    For Forgiveness
    For Strength

    For Wisdom
    She drags herself
    To wake the children
    To feed them
    To give them her blessings
    Her 17-year-old daughter is in her bed
    Dreaming about the wedding
    Hearing the zaffa
    Touching the white dress

    Looking at the eyes that are neatly inspecting her
    Wake up young one
    You have many things to chose
    The nightgown
    The flowers
    The house
    The bed
    She gently kisses her daughter
    She smoothly wakes her up

    She is indeliberately guiding her to a destiny
    That looks exactly like hers
    Wake up my beautiful Salma
    I have a surprise for you
    Your cousin is giving you her wedding dress
    A beautiful white dress
    Who was worn by a girl who was your age
    She no longer wants it
    Because she sadly abandoned her marriage

    You won’t do like her, I know
    You are patient just like me
    Just like my mother
    and just like my grandmother
    Wake up Salma
    Please wake up
    (Mystique – http://mystiquesa.blogspot.com/)

  3. Marcos, A internet é uma fronteira infinita… e só se dará bem nela quem oferecer transparencia total, porque é muito facil ser detonado nela… O Dirceu, em seu blog, consegue boa audiencia e falar coisas que nunca passariam nos jornais…
    e belo poema esse, heim?
    abração!

  4. Avatar de Beto Beto disse:

    Dá uma olhadinha neste outro video aqui:
    http://www.youtube.com/watch?v=Sv55JusfEC8
    Bem bolado….
    Abs

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