Estão de sacanagem com Günter Grass

O autor alemão confessou semana passada ter integrado a Waffen-SS, uma força de elite policialesca que no final da 2a. Grande Guerra atuou como tropa de combate ao lado do exército nazista. Ele tinha na época 16 para 17 anos. Um adolescente confuso e no meio de uma guerra monstruosa. A Alemanha já estava derrotada mas resistia às investidas dos aliados a oeste e dos russos pelo leste. Para não esvaziar as tropas, convocavam soldados cada vez mais jovens. Günter foi um deles. Chegou ao front leste mas não entrou em combate, tendo sido logo capturado. Guardou o segredo até o lançamento de seu novo livro, uma autobiografia – Descascando a Cebola. Agora querem transformá-lo num monstro, por uma participação marginal no universo da loucura nazista. A revelação cai como uma luva para todos que querem desconstruir o passado em nome da hegemonia do pensamento neoliberal.

Que ele, Günter, deu mole ao nunca ter tocado no assunto, até admito. Mas daí a crucificá-lo por essa fatalidade (sim, fatalidade) em sua vida, é muito descaramento e cinismo. O autor de O Tambor não merece.

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2 Responses to Estão de sacanagem com Günter Grass

  1. Avatar de Léo Bueno Léo Bueno disse:

    Acontece que até o reconhecimento do Günter Grass virou espetáculo. A mídia deita e rola nesta época de maniqueísmo total.

    Mas parece que duas coisas depõem contra o cara. Uma é o fato de o Günter Grass ser uma espécie de consciência alemã do pós-guerra; ainda que todo mundo soubesse que ele tinha feito parte da juventude nazista. É como, sei lá, se o Pinóquio descobrisse que o Grilo Falante era pedófilo.
    E outra é o fato de essa revelação ter vindo à tona justamente agora que o escritor lança suas memórias. Então muita gente acusou-o de golpe de marketing (e, de fato, nazismo não é coisa com que se deva faturar algum).

    Ainda assim, esse julgamento sumário é demais. Um cara passa a vida construindo uma carreira séria, lançando uma obra coerente e tal e, um dia, no lusco-fusco da sua idade, durante um jantar em sua homenagem, ele grita “peidei!” e passa a ser o vilão da humanidade. Não tá certo, não.

  2. entao, leo, esse maniqueísmo tem a ver com a desconstrução que certos setores da mídia, da intelectualidade e grupos politicos/religiosos tem interesse em fazer em tudo que for contra a cultura capitalista. Fizeram isso com os ecologistas (até que o planeta começou a dar sinais evidentes e inequivocos de que está todo fudido), ONGs (representação popular? Quiéisso!?! Coisa de comunista!!), presidentes eleitos fora do consenso de Washington (se não rezam a cartilha das grandes corporações, são populistas e nocivos à ‘saúde’ do país), e por aí vai…

    Comparo o fato de Gunter Grass ter sido da juventude nazista com a minha experiencia no stalinista PCdoB. Eu tinha 16 anos e acreditava piamente naquilo que me falavam nas raquíticas reuniões em salas microscópicas… Ora, pode ser um erro, mas não é o fim do mundo. E digo mais: é absurdo pensar que TODO nazista era um grande filho da puta, que era o dêmo encarnado, assassino de judeus. É um erro histórico! Seria o mesmo que dizer que todo mundo que tinha escravos nos tempos idos (seja lá o século que for) era um escroto e violento ser humano. Os códigos sociais mudam sempre, não dá pra fazer esse tipo de avaliação assim rasa. Mas jornalista adora isso, né não?

    Muitos simpatizantes e voluntários e participantes do movimento nazista não tinham idéia do que realmente acontecia, acreditavam na ideologia, como muitos nos Estados Unidos e na Europa acreditavam na eugenia na virada do século 19 para o 20.
    Não gosto dessas generalizações que só servem como forma de simplificar livros didáticos e criar monstros conceituais que geram preconceito, intolerância e desinformação. Tipo: Al Qaeda é ruim, CIA é legal (ora, mas a CIA treinou a Al Qaeda, e aí? contra os soviéticos, Bin Laden era herói, foi até homenageado num Rambo desses da vida. E aí, como fica?)

    Gosto muito de história antiga e lendo sobre Ciro, o grande, Genghis Khan, Dario, Alexandre o Grande, Ramses, e tantos outros, fica dificil classificar este ou aquele de bom ou ruim, de sanguinario ou visionario, de bandido ou mocinho. Isso cabe mais em filme de Hollywood, nao acha?
    abração!!

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