O Velho do Sobrado

A certa altura do livro A Incrível Viagem de Shackleton, que narra as desventuras do navegador irlandês em 1914 pela Antártica, um dos membros da tripulação sobrevivente faz uma observação aterrorizante: eles já tinham enfrentado um naufrágio no Pólo Sul, predadores dos mais variados tipos, ondas gigantes, frio desumano, fome. Mas a coisa chegara a um nível extremo: acabara o cigarro.

Pois é, acabou o cigarro. Meu companheiro de sempre, nunca me deixou na mão. Sempre que precisei, lá estava ele, pronto a me consolar, comemorar, refletir, sonhar, penar, chorar. Me embalou nos momentos mais difíceis da minha vida e me ajudou, por entre seus rolos de fumaça, a tomar importantes decisões. Uma delas a de que não mais sairia aqui de casa. Não fazia mais sentido – como ainda não faz.

Mora desde 1961 na casa
pai nasceu em 1875
Velho nasceu em 1 de dezembro de 1947 (tem 66 anos)

Me chamam de seu Ali. Moro aqui há 48 anos, na casa onde meus pais me criaram e morreram.

Pai nasceu no mesmo ano que o bruxo Aleister Crowley e eu nasci no mesmo dia e ano da sua morte. Daí o meu nome, Alister.

Meu pai, até onde eu sei, não tinha ligações com bruxaria, magia negra e quetais. Mas era meio estranho. Comia insetos. E espancava mamãe sempre que iam para o quarto à noite. Me disse, ao final da vida, que ela gostava. Não duvido. Mas acho que exagerava. Mamãe vivia roxa, com dente quebrado, às vezes até dedos. Certa vez apareceu com um corte no rosto. Papai definitivamente estava exagerando.

Odeio meus dentes. Os poucos que restam. Estão sujos, feios e podres. Já arranquei um monte, outros caíram. Quando os dentistas encontravam algum problema e indicavam o tratamento adequado, eu agradecia e pedia pra arrancar. Ele relutava, claro – tratar dá mais dinheiro – mas eu respondia que se ele não arrancasse, eu mesmo o faria. E o fiz várias vezes. Era divertido. Doía menos do que deixar ele ali, podrão. Dor de dente é a pior dor que existe. Odeio dentes.

 

Fumei o último agorinha e percebi, ao procurar outro pra acender em seguida, como faço costumeiramente, que o pacote estava vazio. Nem adianta procurar pela casa. Não iria encontrar coisa alguma nessa zona toda. Deve ter alguma coisa por aí, talvez uma guimba, mas acho que já fumei todas. Era o último passatempo que realmente me dava prazer. Mesmo fumando há mais de 50 anos, o pulmão parece estar firme e forte, carburando com vontade e expelindo grossos rolos de fumaça sem dar um pio. Gosto de ficar olhando a fumaça subir e dançar. Posso ficar horas assim.

O tédio é uma droga e tanto. Quanto mais entediado, mais o tempo parece congelar.

. Já tenho uma inata tendência à letargia, o que as dores reforçam. Andar é penoso.

Exigência demais ou algo se perdeu pelo caminho?

 

 

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–XXXX—

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já não tinha para pagar a pensão da ex-mulher, o aluguel, as contas (a internet ainda funciona porque o pessoal da NET é enrolado demais, cancelei o serviço mês passado mas o sinal ainda funciona. Então vou usando até quando puder…), a gasolina do carro. Comida ainda rola, porque já dizia meu pai, saco vazio não para em pé. E eu preciso ficar de pé. Ainda tenho esperança de que haja algum tipo de reviravolta nisso tudo. Mas já tô meio cansado. Há algum tempo, aliás.

Não é de hoje que vendo o almoço pra comprar a janta. Esse vinha sendo um dos temas centrais das minhas conversas com a terapeuta (que já rodou há tempos, mesmo com o preço ‘social’ que cobrava). O que me levou à situação em que me encontro hoje? Onde foi que falhei? Quando moleque eu era o típico jovem das infinitas possibilidades. Meus pais chegaram as ser aconselhados a me por em escola para superdotados – ao que se oposuream veementemente. Eu podia ter sido tudo o que quisesse, do bom e do melhor. Mas não fui. Algo deu errado no meio do caminho. A maionese desandou. Deu chabu.

Na terapia eu explicava que nunca dei muita bola pr’esse lance de inteligência acima do normal, QI alto, pular alguns anos na escola (pulei da segunda para a quarta série e fiz a sexta e a sétima séries juntas). Os professores avisavam a meus pais que eu me saía muito bem nas matérias e por isso passava o resto do tempo das aulas perturbando. Isso nao me trouxe muitos problemas, alem dos de sempre – chamadas dos professores em sala de aula, advertencias na carteirinha e boletim, esporro em casa. Quer dizer, trouxe sim, criou em mim um certo tipo de arrogância, uma espécie de carapaça que me fez pensar que tudo se ajeitava no final, no worries, bro.

É, meu camarada, ledo engano. A carapaça não me protegeu, pelo contrário, me cegou. Nao vi o caminhao da vida chegando (nem anotei a placa). Tive oportunidades incríveis. Morei fora do país, aprendi outras línguas ainda moleque, estudei num puta colégio, fiz uma das melhores faculdades de comunicação do país, consegui estágio numa das principais empresas . E quando comecei a ter que me virar pra pagar as contas, meti as caras. Tinha disposição, ah como tinha. E cara-de-pau para pedir trabalho e pra fazer o que pintasse.

Enfim, a coisa foi indo, acabei vindo trampar em XXX , casei com uma mulher incrível ,

A maldita carapaça me deixou insensível às coisas que realmente importavam e a soberba, arrogância, prepotência, sei-lá-eu me jogou no redemoinho da vida. E perdi tudo.

As coisas vão escorrendo, como areia que a gente tenta segurar nas mãos, saca? Desmororando uma a uma, e você sem ter o que fazer – é sentar e esperar a avalanche passar. Só sei que foi ladeira abaixo em tudo – família, profissão, coração, cabeça. Espatifou e se desfez em mil pedaços. Tem como colar?

Bola pra frente, pois é… mas pra onde, parceiro? Já atirei pra tudo quanto é lado e apesar dos tapinhas nas costas, dos elogios a trabalhos anteriores e da garantia de que, se pintar, dá o toque, a gente sente que não tá com essa bola toda pra ser a contratação/aquisição dos sonhos de equipe alguma. No máximo, arruma uma vaguinha pro cara ali, e tá de bom tamanho. Cavei meu próprio buraco lá atrás, isso é certo, seja na dispersão excessiva, na verborragia oca, na incompetência, no mal-humor matutino, na grosseria, na auto-suficiencia.

Anos atrás eu combatia essa angústia toda com sexo, drogas e roquenrol (literalmente). Hoje eu olho pro teto. E escrevo. (E por falar nisso, acabei de receber um lindo presente,uma lista de oito músicas para se escutar olhando para o teto. E é o que vou fazer…)

4 respostas para O Velho do Sobrado

  1. Beatriz disse:

    Jorgenriquecordeiro!!! De repente, senti sua ausência no FB e fui catar seu blog… Que pôrra é essa??? Espero que seja só literatura… Saudades! Beijos!

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