Em jornalismo, não é incomum a gente ver títulos de matérias que pouco ou nada têm a ver com seu conteúdo. Muitas vezes, o texto não traz informação que renda um bom título, ou o editor tem uma grande sacada e resolve dar o que chamamos de esquentada no título, pra atrair a atenção do leitor. Foi o que fizeram com a pesquisa da revista National Geographic, o Greendex 2008: Escolha do Consumidor e Meio Ambiente.
O tal Greendex consultou, pela internet, consumidores de 14 países sobre seus hábitos de consumo, transporte, habitação e alimentação, e apontou brasileiros e indianos como os mais verdes do mundo, seguidos dos chineses, mexicanos, húngaros, russos, ingleses, alemães, australianos, espanhóis, japoneses, franceses, canadenses e, por fim, americanos.
A impresa, com aquela profundidade de um pires que lhe é característica, cravou: brasileiros e indianos são os que mais respeitam o meio ambiente. Nada mais falso. Ora, está claro que países em desenvolvimento aparecem na frente não porque seus habitantes têm maior consciência ecológica, mas pelo simples fato de que eles não têm o mesmo padrão de consumo dos países desenvolvidos. Um indiano não gasta menos energia elétrica que um japonês, um chinês não come menos produtos industrializados que um inglês, um brasileiro não compra menos bugigancas que um americano por ser mais ambientalmente responsável. Essa afirmação é falsa. Eles, isso sim, causam é menos impacto ambiental com seus hábitos de consumo, porque seu atual nível sócio-econômico não lhes permite ter o mesmo padrão de vida que os europeus, americanos e japoneses. Se lhes for dada a chance – e a tal globalização vive pregando isso – consumirão tanto ou mais. E o planeta que se vire para sustentar tudo isso! A questão não é apenas a quantidade do que se consome, mas a qualidade desse consumo.
O site Story of Stuff, da ativista Annie Leonard, traz um dado interessante: 99% do que o americano compra vai pro lixo após apenas seis meses de uso! Não é de se estranhar. A base da economia americana é diretamente ligada ao consumo – tanto que, para resolver o problema da atual recessão, o presidente Bush está enviando cheques de até US$ 600 para cada americano que ganha até um X por mês para que ele gaste em compras. O padrão lá é: compre o quanto puder para que a economia americana não afunde. Não tá funcionando a contento e, pior, vai acabar afundando o planeta inteiro!
A propósito: recebi por email uma série de fotos que revelam de maneira bem interessante como é o consumo alimentar em uma semana de famílias típicas de nove países diferentes – Alemanha, Estados Unidos, Itália, México, Polônia, Egito, Equador, Butão e Chade. Não sei de onde veio essa série, mas as (belas) fotos falam por si:

(Alemanha: Família Melander de Bargteheide. Despesa com alimentação em 1 semana: 375.39 Euros / $500.07 dólares)

(Estados Unidos da América: Família Revis da Carolina do Norte. Despesa com alimentação em 1 semana: $341.98 dolares)

(Italia: Família Manzo da Secília. Despesa com alimentação em 1 semana: 214.36 Euros / $260.11 dolares)

(México: Família Casales de Cuernavaca. Despesa com alimentação em 1 semana: 1,862.78 Pesos / $189.09 dólares)

(Polónia: Família Sobczynscy de Konstancin-Jeziorna. Despesa com alimentação em 1 semana: 582.48 Zlotys / $151.27 dólares)

( Egito: Família Ahmed do Cairo. Despesa com alimentação em 1 semana: 387.85 Egyptian Pounds / $68.53 dólares )

(Equador: Família Ayme de Tingo. Despesa com alimentação em 1 semana: $31.55 dólares )

( Butão: Família Namgay da vila de Shingkhey. Despesa com alimentação em 1 semana: 224.93 ngultrum / $5.03 dólares )

( Chade: Família Aboubakar do campo de refugiados de Breidjing. Despesa com alimentação por semana: 685 Francos / $1.23 dólares)
Jorge, Genial!
Interessante observar a Coca-Cola, fora a Alemanha, vindo até onde o dinheiro falta.
E a bobagem que são os alimentos industrializados. O pessoal do Egito aparentemente come bem, bem mais barato, e sem produções indutriais.
Bela matéria!
Na mosca, grandão.
A série de fotos faz parte de uma série especial do NYT, se não me engano. Servição do ano passado… bj
E conforme me disseram lá no Faça Sua Parte, repararam como a quantidade de embalagens vai se reduzindo? Nos países desenvolvidos é quase tudo enlatado, empacotado, ensacado…
Whashington Novaes, em artigo sobre progressos e entraves da Eco 92 (1992), lembra que durante a Conferência, ambientalistas esperavam a renúncia concreta daquilo que colocava em risco a vida no Planeta: eles esperavam questionamentos mais profundos, capazes de transformar os padrões civilizatórios, as matrizes energéticas, os padrões de consumo. Esperavam que os países ricos se propusessem a mudar seus modelos de desenvolvimento e participação. “Hoje, apontou o relatório brasileiro, um habitante do Primeiro Mundo tem um poder de impacto sobre os recursos naturais 25 vezes maior que o de uma pessoa do Terceiro Mundo.
“Como se tratava de uma conferência sobre meio ambiente e desenvolvimento, o encontro do Rio de Janeiro foi todo ele perpassado pela questão populacional. Como reduzir a pressão sobre recursos naturais se a população do Planeta não cessa de crescer? Como enfrentar problemas ambientais em âmbito planetário se uma parte considerável deles tem relações estreitas com os problemas da miséria? (…) Em 2050, seremos pelo menos 10 bilhões. Um século mais tarde, numa projeção otimista, 11,6 bilhões; na estimativa pessimista, 20 bilhões de pessoas. (…) Com a agravante de que 83% do crescimento populacional previsto se darão no chamado Terceiro Mundo, onde já se concentram 77% da população da Terra, com apenas 15% da renda global. Por onde enfrentar a questão, se a ética impede que se pense em população em termos de poder (desejando que cresça), ou cogitando simplesmente reduzi-la a qualquer preço, para que não afete a segurança dos ricos? É preciso pensá-la em termos de dignidade humana, de adequação dos padrões civilizatórios às possibilidades de recursos e de equilíbrio da vida na Terra.”(NOVAES, 1992)
“A lógica do mercado combina necessariamente com a direção desejada, de implantar o chamado desenvolvimento sustentável? Como conciliar planejamento global com a necessidade de participação e decisão comunitária? Como conciliar a descentralização do poder com a necessidade de que as ações individuais não prejudiquem o equilíbrio global? Como fazer para que os bilhões de deserdados da sorte sejam ouvidos antes das decisões que pretendem definir seus destinos? Como se criar sociedades em que não sejam apenas alguns a decidir e a fazer pelos demais, e sim sociedades capazes de mobilizar todas as pessoas, que dispensem as cabeças supostamente iluminadas? Como acreditar que se estabelecerá um fluxo de informação do Primeiro para o Terceiro Mundo, sem ônus, se informação é poder?”
(NOVAES, 1992)
Por essas e outras indagações o evento não teve avanços práticos – desenvolvimento sustentável pressupõe integração e atenção distinta para cada espaço geográfico.
É na crise contemporânea que se busca recuperar o desenvolvimento através do “qualificativo sustentável”. Os fundamentos do modelo de desenvolvimento vigente foram abalados e este passou a aderir novos valores e significados, expressos no ambientalismo – que se apresenta hoje como a ideologia portadora do futuro em confronto com a ideologia neoliberal (GOLÇALVES,1993, apud ABREU, 2006).
Hoje a definição mais aceita para desenvolvimento sustentável é “o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações” (www.wwfbrasil.org.br). Mas sendo as dinâmicas socioambientais complementares, a gestão do desenvolvimento sustentável se aplica aos mais variados setores – como aponta Roberto Guimarães (1997), em “Cidades Sustentáveis”: 1 – Sustentabilidade ecológica – (…) tem como objetivo a conservação e o uso racional do estoque de recursos naturais incorporados às atividades produtivas. 2 – Sustentabilidade ambiental – relacionada à capacidade de suporte dos ecossistemas associados de absorver ou de se recuperar das agressões derivadas da ação humana (ação antrópica), implicando um equilíbrio entre taxas de emissão (…) e taxas de absorção (…). 3 – Sustentabilidade demográfica – revela os limites da capacidade de suporte de determinado território e sua base de recursos e implica examinar os cenários e tendências de crescimento econômico com as taxas demográficas (…). 4 – Sustentabilidade cultural – necessidade de manter a diversidade de culturas, valores e práticas existentes no planeta, no país ou região e que integram a identidade dos povos. 5 – Sustentabilidade social – objetiva promover a melhoria da qualidade de vida e a reduzir os níveis de exclusão social por meio de políticas de justiça redistribuitíva. 6 – Sustentabilidade política – relacionada á construção da cidadania plena dos indivíduos por meio do fortalecimento dos mecanismos democráticos de formulação e de implementação de políticas públicas em escala global, diz ainda respeito ao governo e à governabilidade nas escalas global, nacional e local. 7 – Sustentabilidade institucional – necessidade de criar e fortalalecer instituições cujo desenho e aparato já levem em conta critérios de sustentabilidade.” (Cidades Sustentáveis, 2000, pág. 30)
Partindo da definição mais aceita, o que tornaria legítima a execução do desenvolvimento sustentável são três determinações, que na prática se esbarram: o ambientalmente correto, o socialmente justo e o economicamente viável. (ABREU, 2006, pág. 28). Nesse quadro, Brugger (1999) apud Abreu (2006) diz que a chamada crise ambiental se trata principalmente de uma crise entre teorias, consenso e viabilidade prática. (ABREU, 2006).
Com base nas dinâmicas a qual está sujeita a questão da sustentabilidade, Santini critica a abordagem do tema pelas mídias, que segundo a autora, peca exatamente na ausência de um tratamento sistêmico e espacial no discurso sobre meio ambiente e desenvolvimento. Por exemplo, o discurso da sustentabilidade para os países mais ricos do Hemisfério Norte é incompatível quando analisado do ponto de vista dos países subdesenvolvidos. Em sua pesquisa a autora observa a universalização do discurso. Assim o conceito de “desenvolvimento sustentável” se perde no contexto globalizado. (ABREU, 2006, pág. 31)
Organismos não-governamentais, organismos internacionais, campanhas trasnacionais, empresas multinacionais, se juntam na consecução de objetivos que tomam nomes sintomáticos como ambiental, planetário, integrado, global, sustentável. Em um jogo perverso entre igualdade e unidade (uniformidade), a universalização e a historicização se confrontam num afrontamento em que os ricos estão presentes no movimento sinuoso que os envolve: o histórico (dominante) passa a universal e essa universalidade se historiciza em sua generalidade apagando o que seria local. (ORLANDI, 2001 apud ABREU, 2006)
Dissertação: O DISCURSO AMBIENTAL DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO JORNALISMO –
COBERTURA SISTÊMICA OU ESPETÁCULO?
Jorge, espero que não se importe. Mas acho que informação nunca é demais.
Abçs
Relacionei na cara dura! muito bom! depois vou pegar essas fotos também!
desde que dê o link, no problem!! valeu!
Izabella, muito bom o texto!!
muito legal post, adorei.
beijos
Obrigado, Sabrina!! bjs!
O link para o original no NYT:
http://www.time.com/time/photogallery/0,29307,1626519,00.html
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