Pro Estadão, motorista vale mais do que favelado

Não sou fã do Luis Weis, que escreve no Observatório da Imprensa e é editorialista do Estadão, e deixo claro isso lá na área de comentários do blog dele no OI. Mas hoje ele escreveu um texto primoroso em que trata da edição dos jornais de São Paulo sobre a desocupação de uma favela na Marginal Pinheiros pela PM. Chama-se O favelado e o motorista. Segue um trecho:

A ordenação dos fatos e das citações estabelece uma hierarquia jornalística – uma forma de ver e relatar um acontecimento. A configuração, no caso, pôs no topo da narrativa o efeito de um episódio da esfera dos choques sociais que incidiu sobre o maior problema cotidiano da cidade: a circulação. Maior porque nenhum outro atinge tantas pessoas durante tanto tempo a cada dia.

Mesmo assim, na contramão das coberturas óbvias, não seria impossível, muito menos amalucado, construir a informação privilegiando o drama humano dos sem-teto e sem-carro, em vez das atribulações – decerto exasperantes, porém não dramáticas – dos motoristas prejudicados. Ainda que estes fossem incomparavelmente mais numerosos e que o congestionamento em que se viram aprisionados tenha se irradiado para quase toda a cidade.

Por que não uma matéria que abrisse com a história, mais bem contada, da gestante que aspirou gás mostarda, em seguida ampliasse o foco para a expulsão dos favalados, e só então mergulhasse no congestionamento, com quantos detalhes achasse desejáveis para dar conta do transtorno por que passou a cidade?

Tive a mesma percepção quando li o noticiário hoje de manhã sobre a violenta ação policial na favela Real Parque. Fiquei estarrecido com a forma como o Estadão tratou o assunto, trabalhando a edição para enfatizar mais os transtornos causados no trânsito paulistano do que o drama das muitas famílias que foram enxotadas do local.

É, no entanto, apenas a comprovação de que o jornalismo praticado pelos principais grupos de mídia do país se afastou completamente das ruas, daí sua imperial indiferença aos dramas humanos que dela surgem. Do interior de um carro, a rua é mero cenário de passagem para os reizinhos de pés de barro.

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3 Responses to Pro Estadão, motorista vale mais do que favelado

  1. Avatar de Guilherme Fazolo Guilherme Fazolo disse:

    Existe nitidamente uma completa desvalorização do ser humano em todos os sentidos na nossa época.

    Carros e trânsito são mais importantes que pessoas,dinheiro e indústrias são mais necessários que o meio ambiente.
    Nossos jornais em termos gerais são motivados por estes interesses “dominantes”, há tempos que valores humanos e cristãos estão completamente esquecidos.
    Com certeza por isto que a barbárie reina em nossos dias… cada vez mais e a violência se tornou materia de escola para as nossas crianças.Aonde isto vai parar.

    Perdemos a capacidade de nos indignar…
    Que Deus nos salve!!!

  2. Avatar de Izabela Izabela disse:

    O jornalismo perdeu seu papel social. A partir da decada de 50 isso se cronificou. Temos um modelo editorial ultrapassado e antidemocratico. O que temos eh uma “empresa” jornalistica onde os fins(din-din)justificam os meios. Sem falar dos profissionais alienados que acreditam que detem o poder da palavra, mas infelizmente contribuem consciente ou incoscientemente para o funcionamento dessa maquina mercadologica.

  3. Avatar de A. A. disse:

    Nao quero aqui defender o jornal, na verdade nem o leio, mas segundo eu vi em algumas reportagens a maioria das “casas” nao tinha morador algum estavam construidas somente para se conseguir alguma vantagem, as vezes cenas como aquelas chocam mas tbem nao podemos aceitar que pessoas se aproveitem de exteriótipos para conseguir vantagens ou apoio da opiniao pública.

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