Você tem fome de quê?

O que a sabedoria popular já apontava agora foi confirmado por um estudo científico recém publicado: alimentos orgânicos são muito melhores do que os produzidos pela agricultura industrial. Têm mais nutrientes e podem ajudar a prolongar a vida das pessoas. O estudo, que levou quatro anos para ser concluído e custou cerca de US$ 200 milhões, foi financiado pela União Européia e pode provocar mudanças significativas na forma como os governos promovem os alimentos em seus países.

Isso é importante porque o lobby da indústria de alimentos é pesado e vem cada vez mais forçando governos a aceitarem seus enlatados em detrimento de produtos mais saudáveis – e orgânicos. Lembra da multimistura, um composto alimentar que incluia farelos de arroz e trigo, folha de mandioca e sementes de abóbora e gergelim? Foi inventado há uns 30 anos no Brasil pela pediatra Clara Takaki Brandão e nas mãos da Pastoral da Criança ajudou a reduzir as taxas de mortalidade infantil no país. Pois então, apesar de ser altamente nutritiva e barata , a multimistura perdeu espaço nas merendas das escolas públicas brasileiras para produtos da Nestlé (Mucilon e Farinha Láctea) e Procter&Gamble, que têm 20 vezes menos ferro e vitaminas e custam o dobro. O argumento do ministro da Saúde, José Gomes Temporão? “Não sou obrigado a adotar a multimistura.” Mas e o bom-senso, também não?

Temporão não é o único que se deixa seduzir pelo canto da sereia. Países do terceiro mundo estão na alça de mira da indústria de biotecnologia, por exemplo, e vários não resistem à tentação. Os caras chegam, dizem que suas sementes transgênicas são mais produtivas, usam menos agrotóxicos e renderão lucros fabulosos, prometem o melhor dos mundos. Mas ao cabo de um certo tempo, os agricultores percebem que a produtividade não aumenta tanto, o uso de agrotóxico tende a aumentar e os lucros são pífios, porque não há mercado para os transgênicos hoje no mundo.

Ainda assim, a campanha continua. Esta semana a Tailândia, um dos maiores exportadores de arroz do mundo, foi palco de uma feira de produtos transgênicos (a BioAsia 2007) e a menina-dos-olhos do evento foi o justamente o arroz geneticamente modificado. Com a Europa fechando cada vez mais seu mercado a essas bizarrices, principalmente agora que a França, maior produtor agrícola daquele continente, decidiu congelar o plantio geneticamente modificado, resta à indústria procurar países em desenvolvimento para despejar seus produtos. De preferência os exportadores como a Tailândia e a Índia, porque aí matam dois coelhos com uma cajadada só: dão vazão à sua produção e abrem uma brecha para entrar na Europa, que mais dia, menos dia, poderá se ver cercada apenas de vendedores de transgênicos. Aí não tem jeito.

Essas e outras questões serão discutidas numa reunião de governos de todo o mundo em janeiro de 2008, em Nairóbi (Quênia), que resultará no Relatório da ONU para a Agricultura. A indústria de alimentos, com ajuda de governos parceiros como o dos Estados Unidos, quer fazer prevalecer sua visão de como se deve produzir alimentos no mundo, abafando qualquer menção a problemas ambientais, éticos (no tratamento aos animais, por exemplo) e de saúde pública. Entidades ambientalistas, cientistas, educadores e pesquisadores estão na luta para que o relatório – fundamental para definir financiamento a pesquisas e meios de produção – não se dobre às falsas promessas. A briga é desigual, mas vale a luta.

Pelo menos lá em casa, os orgânicos venceram há tempos.

Esta entrada foi publicada em Meio Ambiente. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

3 Responses to Você tem fome de quê?

  1. Avatar de Livia Livia disse:

    Jorge,
    vc podia publicar um gui de onde as pessoas encontram orgânicos. Tanto em SP como no Rio e outras cidades…
    Tem uma estância aqui perto q produz laticínios e outras gostosuras q abrem as portas algumas vezes por ano para um brunch e para mostrar como produzem. Uma amiga foi e parece q a próxima será em fevereiro. Poderíamos ir e levar os pequenos. Se bem q, não sei se a nossa Sofia já poderá ir. Mas, vc pode combinar com o André.

    bjs

  2. Avatar de escriba escriba disse:

    E não é que eu estou pensando nisso, Livia? Já levantei uma lista e vou publicar numa página fixa, como essa do Escriba, o repórter, que fica lá em cima.
    Pô, vamos marcar sim nessa estância! A sofia pode ir sim, como não? Ela já é toda saidinha, cheia de compromissos…

    beijos!!

  3. Avatar de Desconhecido kingston » Constatações necessárias sobre o óbvio disse:

    kingston » Constatações necessárias sobre o óbvio

    […] Dando uma olhada nos resultados do The BOBs pra ver se o amigo Inagaki leva um Oscar, fui parar n’O Escriba, que eu não conhecia. De cara, dois comentários importantíssimos: um sobre a CPMF, outro sobre o lobby das indústrias de alimentos. […]

Deixe um comentário