Maravilha sim, mas dos brasileiros

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Tem gente enchendo os pulmões e vibrando a toda com a eleição do Cristo Redentor como uma das sete novas maravilhas do mundo. É o reconhecimento de sua beleza e importância no cenário mundial, dizem. Nem tanto, nem tanto. A votação foi feita pela internet e por celular – e neste último caso, cada ‘eleitor’ poderia votar mais de uma vez. Com a grande campanha feita no Brasil, aliado ao tamanho de nossa população, não é de se estranhar que a estátua que abraça o Rio de Janeiro (quer dizer, apenas a zona sul da cidade) tenha conquistado mais votos que monumentos belíssimos como o Alhambra, em Granada, ou o templo sagrado de Angkor, no Camboja. Venceram os monumentos que contaram com maior marketing em seus países. Numa dessas votações online, Maradona foi eleito o maior jogador de futebol de todos os tempos, superando Pelé, lembram? Ou seja, o Cristo Redentor é sim uma maravilha, mas dos brasileiros.

Não votei no Cristo como uma das novas sete maravilhas do mundo. Minhas candidatas foram o Taj Mahal, Chichén Itzá, Machú Pichú, Alhambra, Catedral de Santa Sofia, Palácio de Petra e Angkor Wat. Dessas, apenas as três primeiras foram eleitas. Tentei votar no que eu realmente achava digno de ser chamado de ‘maravilha’. Poderia ter votado no Stonehenge, na Muralha da China ou ainda no Coliseu de Roma. Obras impressionantes, com grande significado histórico e que são maravilhosas por si só, sem precisar de um puta cenário para complementar.

Não é o caso do Cristo Redentor. O visual lá de cima realmente é incrível, mas o projeto do engenheiro Heitor da Silva Costa não é nada demais para estar entre as obras atuais mais importantes e significativas da humanidade. Se compararmos com as sete maravilhas do mundo antigo então, é covardia – delas, apenas as pirâmides de Gizé, no Egito, ainda existem.

O curioso foi ler as matérias dos jornais após a divulgação dos vencedores do concurso promovido pelo cineasta Suíço Bernard Weber. Os jornais dos países que tiveram monumentos escolhidos vibraram ufanisticamente; os derrotados criticaram (como no caso da Espanha, que concorria com o Alhambra), minimizaram (Estados Unidos e sua Estátua da Liberdade – a Golden Gate de São Francisco também chegou a participar) ou simplesmente ignoraram (França, Torre Eiffel) – veja aqui algumas reações mundo afora.

A crítica mais pesada no entanto veio da Unesco, que tem seus próprios critérios para determinar o que é ou não patrimônio da humanidade, elaborados por especialistas:

O New7Wonders é mais direcionado para motivos comerciais do que para conservação de um patrimônio. As novas sete maravilhas não parecem ter um compromisso com conservação, e não parecem incluir os tipos de coisas que nós incluímos, como o compromisso com nossos integrantes de educar e trabalhar com a mídia e com o turismo, por exemplo.

Concordo plenamente. A eleição das novas sete maravilhas do mundo foi uma brilhante sacada do Bernard Weber, mas não é representativa. Quando entrevistei ele em 2001, o projeto previa apenas um voto por pessoa – na página do concurso, que pedia email e alguns outros dados para garantir alguma lisura no processo – e não incluía monumentos diretamente ligados à figuras religiosas, para não virar um Fla x Flu perigoso. Justamente por isso o Cristo Redentor não estava listada entre as concorrentes. “Não queremos levantar aspectos religiosos na votação, para evitar esse tipo de briga”, disse Weber na matéria que foi publicada no Jornal do Brasil em setembro de 2001. Não sei o que fez ele voltar atrás nos dois aspectos. No caso da votação por telefone, acho que o olho cresceu e ele se rendeu à possibilidade de ganhar um bom dinheiro com as ligações, que eram pagas. No caso da inclusão do Cristo, não tenho a menor idéia.

Outro fato curioso é que o final da eleição estava previsto primeiramente para o início de 2002, mas foi adiado para 2004 (os vencedores seriam anunciados durante os Jogos Olímpicos de Atenas) e, depois, para 2007. Creio que Weber tentou de todas as maneiras obter o apoio da Unesco, o que não conseguiu.

Apesar de tudo, a idéia é genial. Méritos para Weber que pensou na empreitada e foi à luta para realizá-la. Espero que os documentários que prometeu sobre cada uma das novas sete maravilhas sejam realizados – Weber é formado em cinema e trabalhou como assistente do diretor italiano Federico Fellini, em Roma – do jeito que idealizou, em formato I-Max, que permite uma quase interação do espectador com o filme. E também que tenha levantado dinheiro suficiente para reconstruir no local original as estátuas de Buda implodidas pelo talibã no Afeganistão, em 2001. Fecharia o projeto todo com chave de ouro.

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2 Responses to Maravilha sim, mas dos brasileiros

  1. Avatar de Paulo Lima Paulo Lima disse:

    Eu, depois de aprender tudo isso, decidi que voto é no Borba Gato!
    http://www.voteborba.com.br/
    Agora vai!
    abraço,
    Paulo

  2. Avatar de escriba escriba disse:

    hahahaha, sensacional !!! Tem meu voto também!

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