
Curioso como o fim da RCTV, a emissora mais antiga da Venezuela, gerou quase nenhuma discussão no imprensalão brazuca sobre os reais motivos que levaram o governo daquele país a tomar uma decisão tão dura. Os mesmos que há mais de 20 anos louvaram com muito entusiasmo o golpe de 1964 – leia aqui o que diziam em editoriais à época – agora se dizem preocupados com a falta de liberdade de expressão em terras venezuelas. É aquela velha história: quem tem, tem medo. A RCTV perdeu a concessão – sim, TV é uma concessão governamental, que pode ser cancelada legitimamente caso certas normas sejam descumpridas – por ter sistematicamente conspirado para derrubar o presidente eleito Hugo Chavez. O prazo da concessão terminou e o governo venezuelano decidiu não renová-la. Simples assim.
O documentário A Revolução Não Será Televisionada conta bem essa história. Eis um pequeno trecho revelador de como a mídia (em particular a RCTV interferiu decisivamente nos acontecimentos em abril de 2002:
O documentário inteiro está no YouTube, é só procurar. Pois é, agora posam de vítimas. Os (tu) barões brasileiros esperneiam com vontade mas já colocaram suas barbatanas de molho porque sabem que os muitos esqueletos que guardam nos armários fazem um barulho danado sempre que alguém toca nesse passado nefasto – e que nos revela um presente nada digno dos meios corporativos de comunicação.
Abaixo, as primeiras imagens da nova TV venezuelana, a TVes:
(fonte: blog Na Periferia do Império)
O que deve ter de (tu) barão babando de raiva por aí não tá no gibi…
Harold Pinter (dramaturgo inglês, Prêmio Nobel), Joseph Stiglitz (economista estadunidense), José Saramago, Noam Chomsky, James Petras (sociólogo), Ignacio Ramonet (jornalista)… Todos concordam com o fim da concessão.
No sábado o jornal britânico The Guardian publicou uma carta, assinada por 24 intelectuais europeus, apoiando a decisão de Chávez. Isso seria impensável no imprensalão tapuia, que adotou o pensamento único e empurra seus dogmas goela abaixo dos brasileiros. Isso é que é democracia, não?
Num ponto, a carta convida à reflexão: “Imaginem as conseqüências se se descobrisse que a BBC ou o ITV fizeram parte de um golpe contra o governo britânico”.
Claro, seria um escândalo. Na América do Sul é normal. Nós chamamos isso de “liberdade de imprensa”.
A Carta:
Estimado Señor Presidente Hugo Chavez,
Creemos que la decisión del Gobierno venezolano de no renovar la licencia de transmisión de RCTV cuando expire el 27 de mayo (es legítima dado a que RCTV ha utilizado su acceso a las ondas públicas para repetidamente hacer llamados para el derrocamiento del gobierno democráticamente electo del Presidente Hugo Chávez. RCTV brindó apoyo práctico esencial para el derrocamiento del gobierno electo de Venezuela en abril de 2002 cuando al menos 13 personas murieron. Durante las 47 horas que los golpistas mantuvieron el poder, derogaron gran parte de la constitución democrática de Venezuela – cerrando la asamblea nacional electa, el tribunal supremo y otras instituciones del estado.
RCTV exhortó al público a tomar las calles y derrocar al gobierno y también confabuló con el golpe representando de manera falsa lo que estaba ocurriendo y luego llevando a cabo un apagón informativo. Su gerente de producción, Andrés Izarra, quien se opuso al golpe, inmediatamente renunció para no convertirse en un cómplice.
Este no es un caso de censura. En Venezuela, más del 90% de los medios son de propiedad privada y virulentos opositores al gobierno de Chávez. RCTV, lejos de ser silenciada, tiene permiso de seguir transmitiendo por satélite o cable. En Venezuela, así como en Gran Bretaña, las estaciones de televisión deben ajustarse a las leyes y regulaciones que gobiernan lo que pueden transmitir. Imagínese las consecuencias si se hallara que la BBC o IVT son parte de un golpe contra el gobierno. Venezuela merece la misma consideración.
Atentamente,
Tariq Ali
Tony Benn
Colin Burgon, parlamentario,
Dra. Julia Buxton, académica,
Ruqayyah Collector, Oficial de los Estudiantes Negros, Unión Nacional de Estudiantes,
Jeremy Corbyn, parlamentario,
Jon Cruddas, parlamentario,
Megan Dobney, Secretaria Regional, SERTUC
Richard Gott, autor e historiador author
Billy Hayes, Secretario General, CWU,
Gordon Hutchison, Secretary, Venezuela Information Centre,
Kelvin Hopkins, parlamentario,
Chris Martin, Director, La guerra contra la democracia
Joni McDougall, Oficial del Solidaridad Internacional, GMB,
Gerry Morrissey, Secretario General, BECTU,
Kaveh Moussavi, Universidad de Oxford
John Pilger,
Harold Pinter,
Profesor Jonathan Rosenhead, LSE,
Keith Sonnet, Subsecretario General, UNISON,
Hugh O’Shaughnessy, escritor y periodista,
Rod Stoneman, Productor Ejecutivo, La revolución no será transmitida,
Jon Trickett, parlamentario,
Gemma Tumelty, Presidenta, Unión Nacional de Estudiantes,
Cllr Salma Yaqoob.
Brasil:
Joao Pedro Stedile, Via Campesina Brasil
Jose Arbex, professor de jornalismo PUC-SP
Hamilton de Souza, professor de jornalsimo PUC-SP
Nilton Viana, editor do jornal Brasil de Fato.
Ricardo Gebrim, Sindicato dos Advogados de Sao Paulo
Egidio Bruneto, comissao executiva da Via Campesina Internacional.
Luis Bassegio, Grito dos Excluidos Continental,
Aton Fon, Rede Social de Direitos Humanos
Frei Sergio Gorgen, Movimento dos Pequenos Agricultores MPA- Brasil
Ideologicamente a retirada do ar da RCTV pode ser defensável – a rede Globo aqui no Brasil poderia perder sua concessão por sua curta, porém nefasta história. Mas, o caso na Venezuela, penso, é muito mais sério. O problema é que na tal da Revolução Venezuelana, inversamente proporcional a alguns avanços sociais, subsidiados pelo preço estratosférico do petróleo que Hugo Chavez sabe manipular politica e economicamente muito bem, há um acumulo perigoso de poder nas mãos do líder venezuelano – isso não consigo ver com bons olhos. Se unido aos avanços sociais viesse uma maior autonomia da população venezuelana, com avanços na democracia direta (libertária, autogerida) seria um avanço não só para a América Latina, como também para o Terceiro Mundo. Enquanto há um grande líder, há perigo de haver um tirano.
Concordo com vc, contra, um grande líder pode levar à uma tirania, mas a tirania corporativa é tão ou mais predadora. O que me irrita é esse bafafá todo criado em torno do fim da concessão. O prazo expirou e nao a concessão nao foi renovada. Faz parte do jogo, mas eles não aceitam, querem mudar as regras – como sempre fazem quando têm seus interesses contrariados.
A nova TV já entrou no ar e contará com programas feitos por 500 produtoras independentes de toda a America Latina. Eu acho o modelo interessantissimo. Os (tu) barões brazucas que coloquem suas barbatanas de molho…
Tirania é a que sofremos a séculos nas mãos da direitona babenta, que não quer largar o filé e nem o osso.
Na Venezuela não há nenhum jornalista preso. Aqui jornalistas são mortos impunemente, como no caso do Barbon Filho, de Porto Ferreira. Tem também o caso do Pimenta Neves, que matou a namorada jornalista com dois tiros na cabeça e continua solto. Nesse caso, a tirania exercida pelo poder econômico é evidente – prisão é para pobre, preto e puta.
Também vejo tirania nas artes. Estamos cercados de lixo cultural por toda parte. Quem tem dinheiro paga jabá para mostrar o trabalho nas TVs e nas rádios. Quem não tem, que se vire.
O que dizer do jornalismo? Mais tirano, impossível. Os dogmas dos (tu)barões da mídia
também nos são impostos, sem que nada possamos fazer – seria um atentado contra a “liberdade de imprensa”.
Que ponham as barbas de molho. O povo demora para despertar. Mas, quando desperta…
Sinceramente acho o chapolim das américas uma piada… mas gostei de saber sobre a vinculação de programas de produtoras independentes… o que gostaria é que fossem independentes e que a censura não reinasse no país…
Pois é. A esquerda otária apoiando o ditador Chavez. Me impressiona como todo mndo é absurdamente ingenuo nessa estória toda. Chavez faz jogo de cena com Bush só por causa do petróleo.
Se ele fosse um verdadeiro Herói Comunista (sic) não venderia óleo pros Eua, num embargo ao contrário.
Foda-se ele, Bush et caterva. Todos iguais.
Ditador eleito pelo povo, por meio do voto dos eleitores? Quem elegeu os golpistas?
Na Venezuela as instituições funcionam. Não há jornalista preso. As grandes corporações de mídia podem continuar descendo a ripa no presidente, recebendo dinheiro dos gringos, manipulando, fraudando, mentindo, tramando golpes – é que os sulamericanos chamam de “liberdade de imprensa”.
De uma hora para outra países como Venezuela e Bolívia começaram a interessar ao imprensalão tapuia, que sempre virou a bunda para os nossos vizinhos e arregalou os olhos para Miami.
Pau na canalha, presidente Chávez. Coragem, presidente Lula.
Essas omissões já são esperadas. Como vc disse: quem tem … tem medo. Pensar que a censura tb está dentro das instituições universitárias de onde saem enxames de subjornalistas. Estes que mais tarde vão assumir seu lugar na “empresa jornalística” e jogar conforme as regras. Censura, tirania… tb é a alienação que controla a direção de muitos estudantes. Tive/tenho a oportunidade de conviver com um número gigantesco de “galinhas sem cabeça”. Muitas destas instituições privadas agem contra os princípios democráticos que pregam nos anúncios publicitários. Eu mesma fui proibida de escrever sobre a ausência de um diretório acadêmico onde curso jornalismo. Quando fui fazer a pesquisa quiseram saber sobre o professor que autorizou a pauta. Mais tarde este professor mudou o curso da primeira proposta de prova e sugeriu um tema único para a mesma turma. O assunto “DA” é literalmente proibido!!! Numa palestra com Marcos Sá Corrêa, nesta mesma universidade, tb pude constatar a falta de interesse em iluminar a mente dos alunos mais desamparados… O jornalista foi convidado para falar sobre fotojornalismo e brilhantemente aproveitou para fazer um discurso político responsável. Não preciso nem dizer que, nos bastidores, coordenadores e professores torceram o nariz. Porém, poucas vezes vi um auditório tão envolvido e interessado. Precisamos de um movimento urgente dentro dessas instituições!!!
Também acho que essa concessão tinha de cair. Aqui no Brsil ninguém discute a sério regime de concessões, regras públicas para a televisão, esses assuntos. E o resultado é a constrangedora qualidade da TV brasileira.
E também acho que todo o poder de comunicação que tem estado na mão dos barões da mídia sempre prejudicou a sociedade. Aliás, magnífico o texto do Habermas no último caderno Mais. Recomendo.
Mas não posso deixar de concordar com a pessoa que assinou logo acima como “Contra” (por que não bota o nome real, pô?). A concentração de poder é um passo líquido e certo para a perseguição às minorias.
PS. “Esquerda otária” e “et caterva” são clichês de pessoas que são influenciadas por ex-popstars da Internet porque lhes falta a capacidade de raciocínio próprio. Por isso mesmo, não sabem debater.
Ditaduras podem ter apoio popular, como muitas têm ou já tiveram. Chávez foi eleito? Foi. E os 40% de venezuelanos que não votaram nele? Ainda que fossem 1% ou menos teriam de ser respeitados, o que evidentemente o presidente venezuelano não faz, fazendo a sempre perigosa aposta no confronto e na clivagem. Chávez é um golpista anistiado (benefício que ele teve, mas não dará a seus opositores).
Democracia direta? Funciona como? Com plebiscitos? E quem decide o que será votado? O presidente? O Congresso (no caso, totalmente controlado por Chávez)? Aparentemente, trata-se de mais poder para o povo, mas na verdade acho um belo caminho para a manipulação das massas (colocamos em votação só o que nos interessa e quando sabemos de antemão o resultado).
Se a democracia direta é uma panacéia como dizem alguns (justificando as barbaridades de Chávez), vamos pensar na hipótese:
A violência é um dos problemas mais graves do Brasil. O povo deveria opinar sobre como combatê-la. Vamos então fazer um plebiscito para instaurar ou não a pena de morte? Não? Mas a voz do povo não é a voz de Deus? Ou questões relevantes só são relevantes se forem do interesse do grupo de turno no poder?
E vejam bem, sou contra a pena de morte, o exemplo é só para mostrar as contradições de um sistema de democracia dita direta. Fazer o tal referendo seria o reverso da moeda, muito mais assustador do que a primeira hipótese que eu levantei. Ou seja, por esse meio, o próprio povo pode entregar de bandeja suas liberdades, garantias constitucionais, etc. Sem chiar e tudo 100% dentro da legalidade! Como na Venezuela.
A democracia direta seria uma boa, mas a manipulação correria solta, como acontece na democracia representativa. Plebiscitos são válidos, sou a favor deles. O problema é quem faz as regras e como elas seriam aplicadas para que essa democracia direta não fosse usada para referendar o desejo de poucos grupos, os mesmos que se beneficiam há 500 anos das benesses dopaís.
Mas o caso aqui, Carlos, é a concessão da RCTV. Não vejo nada demais no fim dela. A emissora usou e abusou do seu direito de tê-la. Conspirou abertamente, tramou, provocou, mentiu, quebrou regras, achando sempre que nada aconteceria. Aconteceu. Fim de papo. A regra era clara, não respeitaram porque acharam que nada mudaria. Que sirva de exemplo. A lei não pode ser diferente para este ou aquele grupo.
oi oi oi… entao já to lendo mesmo antes de vc me mandar o post ….kkkkk
gracias…
mas continuo odiando o chapolim… pode ser pessoal???????
Pode ser pessoal, pode ser reflexo do bombardeio das informações deturpadas por parte de nossa imprensa. O caso é que a mídia por aqui nunca dei muita bola para os assuntos dos países vizinhos, só quando interferem em seus interesses proprios. Só temos correspondentes na Argentina, é mole? Já NY, Londres, Paris, Roma… Patético…