Brasília em 3 cenas

Cena 1: Numa audiência pública da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), reunindo a nata da comunidade científica em biotecnologia e também ambientalistas e entidades da sociedade civil para discutir o milho transgênico e a engenharia genética em geral, representantes das grandes corporações de biotecnologia (Bayer, Syngenta, Dow Química, Dupont) promoveram um show de deboche. Passaram a reunião inteira rindo e fazendo cometários jocosos e desrespeitosos contra os que defendem mais precaução em relação aos organismos geneticamente modificados. Apoiados por agroboys e grandes produtores rurais, afirmavam sorrindo que aquilo tudo era uma grande palhaçada, porque eles já tinham ganho a parada – a maioria dos membros da CTNBio está mesmo do lado deles.

Como bem disse o geneticista Flávio Lewgoy, a questão econômica está prevalecendo sobre a científica no caso dos transgênicos. E isso é deveras perigoso…

Cena 2: Passei a quarta-feira no Palácio do Planalto, circulando pelos corredores e salas com representantes do MST, Via Campesina e da Terra de Direitos, tentando falar com a Dilma Roussef. Era o último dia para o presidente Lula vetar ou sancionar a famigerada Medida Provisória pró-transgênicos – que acabou passando sem dó nem piedade – e Dilma é quem iria discutir o assunto com ele.

Antes de mais nada, um comentário sobre a segurança do palácio: aquilo lá é um bundalelê! Gente circulando pra tudo quanto é lado (ok, tinha uma solenidade rolando, mas mesmo assim…), mochilas, maletas, tudo entrando sem muita fiscalização, uma beleza. Para se ter uma idéia, a gente chegou sem muitos problemas à porta dos gabinetes da Marisa e também do Lula. Foi quando Collor passou e nos cumprimentou. Acho que pensou que aquele grupo de maltrapilhos fosse da imprensa. Ou não, sei lá.

Enfim, não conseguimos encontrar a Dilma nem falar com o Lula. Mas falamos com a Marisa, entregamos a ela uma carta e tiramos foto. Depois de mais um tempo zanzando, decidimos ir embora. Na entrada do palácio, uma senhora de máquina fotográfica em mãos parecia ansiosa. “O Collor já tá aí?”, perguntou. “Soube que ele estaria aqui hoje e por isso vim de João Pessoa para ver ele, uma pessoa digna e injustiçada.” Heim? Então tá então…

Cena 3: Chego no aeroporto para vir embora pra sampa e dou de cara com uma manifestação grande, com uma faixa amarela em defesa da CPI do Apagão (a-hã…). Aí vejo Raul Jungmann, o ético de R$ 33 milhões, dando entrevistas, e Fernando Gabeira e Luiza Erundina recolhendo assinaturas das pessoas. “Queremos investigar esse caos aéreo, pode assinar?”, perguntou ela para mim. “Só se vocês abrirem uma CPI para investigar também o apagão dos ônibus lotados em São Paulo e no Rio. E em BH e aqui em Brasília também. A senhora já viu como fica o terminal Santo Amaro no fim de tarde? É gente saindo pelo ladrão…” Ela ficou me olhando com cara de tacho e ia responder quando dei as costas e saí.

Puta palhaçada. Por que não investigam a TAM, que faz merda adoidado em seus vôos? Ou promovem esse mesmo tipo de manifestação nos terminais de ônibus Brasil afora, exigindo melhores condições de transporte para a população? As filas que o pessoal enfrenta nos aeroportos é pinto perto do que a maioria da população passa para chegar ao trabalho ou voltar para casa, todos os dias, há anos. Querem fazer marola. Com o respaldo da imprensa, claro, que estava lá em peso.

(Paulo Henrique Amorim também se diz horrorizado com o caos aéreo, saca só.)

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8 Responses to Brasília em 3 cenas

  1. Avatar de Fábio José de Mello Fábio José de Mello disse:

    “Minha fonte parece insuspeita e me atrevo a tocar de leve no assunto. Circula a informação que um poderoso grupo de mídia “quer a investigação” e tem pronta uma teoria “conspiratória” de pouca consistência, mas intrigante, que a CPI se encarregaria de escancarar. O enredo parece aloprado, porém os primeiros capítulos da novela já estão paginados, tanto para dar ibope como para dar muita dor de cabeça ao presidente.”
    E quem disse isso foi o ex-deputado tucano Vittorio Medioli, do jornal O Tempo, de BH.
    São os (tu)barões safados que não se conformam com a derrota e querem a todo custo abreviar o mandato do presidente, mesmo que isso possa levar o país a uma aventura sem precedentes.

    Quanto ao buraco do metrô, nada. CPI do pedágio? Necas.

  2. Avatar de Léo Bueno Léo Bueno disse:

    O apagão dos terminais em São Paulo é coisa mais séria ainda desde que inauguraram o Fura-fila. Moradores de São Caetano, Santo André e Mauá que antes pegavam ônibus para as estações Dom Pedro, Saúde e Santa Cruz agora estão sendo obrigados a fazer interligação. Perdem o maior tempo, mas o pior não é isso: é que bilhete único só vale para quem é de São Paulo. Ou seja: estão jogando o prejuízo de uma obra de concepção e de culpa dos prefeitos paulistanos – e imagina o tamanho do preju que foi o Fura-fila – para os bolsos dos moradores de outras cidades.

  3. Pois é. Mas deputado e senador não gosta de ficar na fila – e nem pega ônibus, né mesmo?

  4. Avatar de Sérgio Sérgio disse:

    Sinal dos tempos: o blogueiro foi mais estúpido e intolerante com a Erundina do que o Collor. Isso que é seguir a orientação do Nosso Guia (como o chama o Elio Gaspari) caninamente…

  5. Estúpido? Eu disse na cara dela a real: eles estão fazendo marola pra aparecer. Com o Collor nem falei, cumprimentei com a cabeça e só.

    Vc, como muitos na mídia golpista, deturpa a informação pra caber na sua teoria. E la nave va…

  6. Avatar de Sérgio Sérgio disse:

    Calma, Jorge, sua reação só mostra que há alguma verdade no que eu escrevi. Para mim, é ser estúpido dar as costas a uma senhora de mais de 60 anos e ir embora quando ela ia falar, depois de vc. ter feito todo seu discurso, independente de concordar ou não com a opinião ou posição política dela. Perceba que com o Collor vc. cumprimentou, um gesto bem mais cordial do que com a Erundina.

    Dois detalhes: 1) não trabalho em imprensa (felizmente), portanto não tenho como fazer parte de nenhuma mídia golpista ou não; 2) também não compro essas teorias maniqueístas de que toda crítica ao governo Lula (conservador e contraditório em muitos aspectos, inclusive na questão dos transgênicos, que deveria incomodar mais vc.) é golpista e distorcida, mesmo que muitas (como a Veja, Mainardi, Olavo e outros) realmente sejam.
    Abraços,

    Sérgio.

  7. Dei as costas para uma senhora de mais de 60 anos que está fazendo marola de um assunto sério para ver se colhe tsunami lá na frente. O discurso dela eu conheço de cor e salteado, ela tem toda a mídia (golpista) para fazê-lo circular, e não iria dar mais um palco (minusculo que seja) para ela cantar de galo.
    E sim, Lula me constrange muito por sua posição pró-transgênico. E tenho certeza de que está mal assessorado no assunto. Pena mesmo.

    Vc pode nao fazer parte da imprensa, mas reverbera suas teorias golpistas. Ponto para eles. Teorias maniqueístas? Ora ora ora, basta ler jornais e revistas estrangeiros pra ver a merda de imprensa que temos aqui…

  8. Avatar de juliasi juliasi disse:

    “como funciona a justiça na prática. Um processo ação de alimentos instaurado por mim há 6 anos, onde a juíza da 3ª Vara de Família e Sucessões de Santos -Sp, mandou que respondesse po crime de desobediência e omissão a Indústria Química Dow Brasil e este ofício que deveria ser encaminhado em 15 dias ficou engavetado por 5 anos, o ministério público de santos diz se tratar de uma enorme negligência, procurei a corregedoria , após isso, o ofício foi encaminhado mas o crime foi prescrito. Aguardo desde agosto de 2009 que um outro ofício seja encaminahdo a Empresa Amino Química onde extratos bancários do réu da ação que é sócio quotista da dow , mostram que existem vários depósitos mensalmente em sua conta de valores altos, mas até hoje este ofício não fora enviado, enquanto isso aguardo a pensão de meu filho menor impúbere, o processo criminal encontra-se no JECRIM de Santos nº 405/09, a satisfação da Dow ao processo foi por cálculos em papéis datilografados que não provam coisa alguma, e o documento de fato solicitado pela juíza da 3ª Vara de Santos até hoje é negligenciado pela Dow através de seu advogado Dr. Elder, na ação criminal. pra mim como autora da ação e representante dop menor filho de um de seus sócios quotistas, é mais um deboche da Dow, que é tida como uma empresa que faz tudo certinho

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