Stones? U2? Hum… não, obrigado

Outro dia me perguntaram se eu não estava empolgado com a vinda dos Rolling Stones e do U2 ao Brasil. Respondi que nem um pouco, não me interessa em nada. Curto roquenrol, sou fã dos Stones e fui nos dois shows anteriores (em 95 no Maracanã e em 98, na Praça da Apoteose, ambos no Rio), mas esse na praia de Copacabana tá com a maior cara de mico total. Sem chance.

Pra começo de conversa, os Stones são um mero pastiche do que foram tempos atrás. Deveriam ter parado depois de Tatoo You, em 1981. De lá pra cá, não produziram nada de interessante, opa, tudo bem, tem o Stripped, de 1995, que incluia apresentações ao vivo em pequenas casas de show, nada desses mega shows de estádio (ou praia) em que vc passa mais tempo olhando pro telão ou procurando alguém conhecido ao redor do que para o palco. Não tenho mais saco pra isso. Aliás, acho que nunca tive. Fui ao maraca em 95 porque era a chance de vê-los ao vivo pela primeira vez. Lembro que praguejei muito pelo fato de ser num estádio – e olha que consegui ficar relativamente perto do palco. Nada que Jumping Jack Flash, Parachute Woman ou Tumbling Dice não me fizessem esquecer logo. Pulei pra caramba, quase quebrei o pé num dos buracos q surgiram ao longo do show no imenso tablado que protegia o gramado – era o pessoal arrancando tábuas pra poder dar uma boa mijada, já que os banheiros ficavam longe pacas, eram imundos e as filas, quilométricas -, e fui um dos que ovacionaram Charlie Watts, quase levando às lágrimas o contido batera.

Meu irmão protagonizou à época duas cenas divertidíssimas. Ele organizou uma excursão de Brasília pro Rio pra trazer um pessoal pra ver o show. O ônibus, velho toda vida, parece que quebrou umas três vezes na estrada e o motorista não sabia rodar na cidade maravilhosa. Estava eu no aniversário da minha sobrinha em casa à tarde e me liga o Beto: “Pô, já tô no Rio, mas perdido. Como faço pra chegar no Maracanã, Jorge?”. “Vc tá onde?” “Tô na Lagoa…” “Lagoa?!? Como vcs foram parar aí??” Eles passaram pelo Maracanã e nem se deram conta!! E foi um custo pra ensinar o motora a chegar no maraca. Na volta, mais perrengue, o ônibus quebrou de vez, na praia de Ipanema. Ficaram quase o dia inteiro, de ressaca, sob um sol de lascar, esperando a empresa mandar outro veículo. E caíram no mar de cueca, calcinha e sutiã, maior farra, os candangos invadiram a praia! Fui lá dar uma força, até fiquei com pena. Batizei a empreitada toda de perrengue tour. :)

Encontrei meu irmão e sua turma na frente do estádio já no finalzinho do show da Rita Lee (agora atacam de Titãs… a falta de criatividade é impressionante, são sempre os mesmos, Titãs, Paralamas, Barão, Rita Lee… alugaram nosso gosto, bem diz Zé Rodrix!) e achei o Beto forte pacas. Estava grandão, com uma jaqueta de couro, parecia um daqueles leões-de-chácara de boate… “Caramba, Beto, vc tá enorme, heim?” E ele, rindo, abriu a jaqueta e me mostrou a camiseta que tinha bolado, da boca com a língua dos Stones aplicada sobre a bandeira brasileira. “Legal, vc quem fez?” “Sim, quer comprar uma?” “Quero, quanto?” Ele tira a camisa e, embaixo, vejo outra. O cara tinha vestido umas 10 camisas para poder entrar com elas e faturar um troco lá dentro! Se bem me lembro, vendeu todas (foi isso mesmo, Beto?). O pessoal olhava, gostava, perguntava onde tinha arrumado e ele tirava a camisa e vendia…

Em 98, teve um puta plus a mais, Bob Dylan abrindo a noite, esporrante, o velhinho mandou ver num set enxuto, roquenrol total. Muita gente reclamou porque as músicas ficaram irreconhecíveis, mas porra, música é isso aí, mutação constante, pedras que não rolam criam limo, e de bobo, dylan não tem nada. Além desse aperitivo ducaralho, a produção dessa segunda apresentação dos Stones teve a grande sacada de colocar um mini-palco no meio da galera pra que Jagger, Keith, Wyman, Wood e Watts pudessem reviver os bons tempos dos cafofos nos quais se apresentaram durante anos antes do estrelato. E mandaram praticamente o mesmo repertório do Stripped. Eu nem tinha reparado que estava do lado desse palco menor até o momento em que eles desapareceram do palco principal e surgiram assim, do nada, do meu lado esquerdo, pertinho pertinho… putz, inesquecível, Stones voltando às origens ali.

Agora, nesse show da praia, não vejo o que eles podem acrescentar. O som é manjadíssimo, as músicas novas medíocres e a distância do palco vai ser, ao que parece, ainda maior do que é num estádio, graças à área VIP que insistem em colocar em eventos ao ar livre e gratuitos. Porra, ser VIP nesse tipo de show é o cúmulo do esnobismo. A galera da geral tinha que dar um banho de areia nesses putos… VIP que é VIP vai assistir aos Stones em Paris, Londres, Nova York, na casa do Mick Jagger, sei lá…

Sim, eu sei, tem muita gente que não viu os dois shows anteriores, e vai se esbaldar, tenho certeza. Eu me esbaldaria, encontraria amigos das antigas, faria novos, enfim… Mas não há como esconder: o show, em si, é fraaaaco, mais do mesmo. Muitos no entanto mentirão pra si mesmos, dirão que foi impecável e tal, incapazes que são de admitir a real, hipnotizados que estão pela maçaroca de publicidade que receberam ao longo das últimas semanas. Como fomos também em 95 e 98, mas havia atenuantes (ineditismo, bob dylan, mini-palco).

Caíamos na real. Os Stones não são exímios instrumentistas e nada produziram de relevante nos últimos 20 anos. Os melhores músicos da banda se mandaram há tempos – Brian Jones (r.i.p.), Mick Taylor, Bill Wymann (que está em turnê na Europa com seu Rhythm Kings, esse bem que poderia vir pro Brasil). Watts é simples e eficiente, e gente boa pacas. Keith ganhou experiência e se aprimorou, é um bom criador de riffs e tal, nada muito além disso, e que faz uma dobradinha azeitada com Ron Wood, outro bom guitarrista, mas uma pálida sombra do que foi na época no The Faces que tinha ainda Rod Stewart e Ronnie Lane. Foi quando foi convidado para os Stones substituindo justamente Mick Taylor. E Jagger, bem Jagger segura a onda pulando que nem um macaco (talvez daí a decoração amazônica do palco, putz, mais cafona impossível…), sem esconder que é um senhor de 60 anos e como tal é totalmente dependente dos efeitos da mesa de som. Enfim, se for pra ser totalmente sincero, esse show tem mais apelo pela badalação social e oba-oba típico dos eventos cariocas do que por ser um bom show de roquenrol. O resto é marketing de quem quer vender jornal e ter um bom ibope na noite de sábado.

E o U2… bom, nunca fui muito fã deles. Tô cagando e andando solenemente.

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8 Responses to Stones? U2? Hum… não, obrigado

  1. Avatar de Clayton Alves Clayton Alves disse:

    Prezado Escritor,
    Saliento as frases:
    “(…) não me interessa em nada.” = “em nada (…) não me interessa”;

    “(…) não produziram nada de interessante” = “nada de interessante (…) não produziram”;
    “dylan não tem nada” = “dylan tem algo”, pois “nada ele não tem”.
    Sugiro, respeitosamente, acabar com essas petulantes duplas negativas, que de reforço nada produzem, pois nega-se a negação, perante a lógica formal.
    Obrigado.

  2. não pretendo entrar pra ABL, não pretendo ganhar prêmio literário com o que escrevo por aqui…
    Na boa? tô cagando para a lógica formal, meu caro clayton…
    abraços
    jorge

  3. Avatar de Álvaro Álvaro disse:

    Bom vç se diz fã dos stones…pode até ser que vç goste um pouco mas com certeza não conhece nada de stones,é preciso ser um exímio instrumentista pra tocar numa banda de rock??? pois eu acho que não !!! é preciso ser algum Pavaroti pra cantar em uma banda de rock?? a voz de Keith pode ser ruim pra vç !!! mas não pra mim e pra vários outros fãs , pra cantar em uma banda de rock ela se encaixa perfeitamente, ou vç queria o Aguinaldo Timótio!? com certeza Tattoo you foi o último grande disco dos stones , mas depois disso eles lançaram Voodoo lounge ,stripped, e esse último bigger bang que é até melhor que v.lounge,além do mais qual desses veteranos que ainda estão por ai continuam lançando grandes discos?? acorda cara!? vç se acha muito entendido no assunto mas não sabe nada de stones, e depois de tudo que esses caras já fizeram pelo rock acho que eles merecem no mínimo respeito,eu não troco os riffs do Keith, a batida simples e eficiente do Charlie as letras de duplo sentido e sacanas do Jagger por nenhum desses virtuoses do rock progressivo por exemplo, as letras de jagger e richard estão entre as melhores da história do rock e isso é um fato, mas concordo contigo sobre o show de Copa não foi lá essas coisas mas tb não foi ruim, acho que o melhor deles foi o de 98, o 95 no maraca tb foi bom , mas o de 98 foi ótimo eles tocaram muito e stones com vontade com fome de palco não têm pra ninguém,mas nem sempre se está inspirado pra se fazer grandes shows e isso serve pra qualquer artista , eles não são obrigados a serem sempre ótimos , embora alguns ignorantes metidos a intelectulóides achem o contrário.

  4. Álvaro, meu caro, já fui viciado em Stones, só escutava os caras, levava fitas pras festinhas, tenho uns 15 LPs e CDs deles, portanto, acho que sei um pouquinho do que estou falando…
    Outra coisa: Stripped não pode ser considerado um disco novo deles (é de 1995, não?) porque é um disco de regravações de antigos clássicos.

    Pra finalizar: concordo contigo, o show de 98 foi o melhor entre os três.
    um abraço!

  5. ah, sim, sobre eles nao serem eximios instrumentistas. Não vejo problema algum nisso (se bem que é bom ter pelo menos UM craque na banda), o que eu quis dizer é que só valeria enfrentar aquele mundaréu de gente na praia se fosse pra curtir o grupo no auge ou se eles tivesse um ás em algum dos instrumentos. Pra ver um pastiche de uma das melhores bandas de roquenrol do planeta, tocando as mesmas musicas, de forma cada vez pior? nem fudendo!

    valeu! Volte sempre!

  6. Avatar de Álvaro Álvaro disse:

    Sim Jorge !!! striped pode ser até considerado uma coletânea deles, o que acontece é que na época todo mundo estava nessa de unpluged, e os stones não quiseram seguir essa tendência e fizeram o striped , que foi gravado em palcos pequenos e algumas coisas no estúdio, e eu concordo contigo quanto ao stones não serem mais os mesmos …mais quem desses medalhões ainda são ??? o problema é que todo mundo gosta de falar dos stones!!! e têm tanta porcaria por ai enganando que eu não troco um disco mediano dos velhinhos(mesmo eles não sendo eximios músicos)por nenhum oasis ou coldplay da vida, tenho todos os discos dos stones tanto de estúdio quanto ao vivo, e acho que em toda sua longa carreira só dois podem ser considerados ruins…emotional rescue de 80 e o pior de todos dirty work de 86, mas é aquele negócio cada têm a sua opinião, eu por exemplo gosto muito de Keith como guitarrista é claro que ele já foi bem melhor,mas o velho ainda dá pro gasto, e até seria humanamente impossivel Keith continuar tocando bem , o cara têm calos enormes em todos os dedos de tantos anos tocando, e com certeza aquilo de dificultar bastante seus movimentos,fora os anos de vicios , mesmo assim ele continua e não somente pelo dinheiro(mesmo pq ele não precisa)mas acima de tudo pelo amor que ele têm ao rock, que queiram ou não os stones ajudaram a construir,qualquer garoto que queira montar uma banda de rock vai ter que passar pelo manual stoneano…mesmo que indiretamente, do mesmo modo que os stones pra formar a sua teve que aprender com chuck berry e cia. Tudo que os stones fizeram no período de 64 até 74 foi importante para o rock…agora os velhinhos têm todo direito de curtir sua velhice se divertindo em cima dos palcos da vida , independente de estarem tocando bem ou não,artista não se aposenta vai até o fim como fizeram seu mestres Muddy Waters , John lee hooker,H.Woolf…

  7. Avatar de Álvaro Álvaro disse:

    Mais uma coisa em 98 na apoteose eu fiquei no lado esquerdo do palco pequeno bem na frente!!! deu pra ver os caras tocando na minha cara !!! foi um sonho se eu morresse ali morreria feliz …sai da apoteose tão realizado que fui pra um boteco encher a cara!!!
    Um abraço

  8. e eu estava do lado direito, mas na verdade só percebi o palquinho quando os caras começaram a tocar ali… pra tu ver o meu estado…

    abração!

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